De Mónaco a Madrid

18 de Abril de 2017

Gosto de pensar nas equipas através da sua personalidade própria. E, na verdade, ao mais alto nível, têm de ter mesmo para se impor. Possuir também, claro, a flexibilidade da estratégia que cada jogo (cada adversário) pede, mas nunca fugir à essência do seu modelo, que é, no fundo, o espelho da sua personalidade.

Neste sentido, uma equipa nunca deve tentar fazer algo que tacticamente não... saiba fazer, ou que possa, no jogo, fugir à sua personalidade. Quando o tenta e, naturalmente, falha, pode perder o controlo dum jogo que até então estaria a dominar. Foi o que senti suceder ao Mónaco de Jardim em Dortmund.

Não está em causa o valor táctico sólido e mecanizado (sem ser mecânico, porque continua a ter a imprevisibilidade dos movimentos dos jogadores), mas sim a forma como, no nível de Champions, depois de se impor pela sua personalidade (um 4x4x2 pressionante, com astúcia para baixar até um bloco médio-alto e depois sair rápido na transição a ligar o ataque veloz) quis, a ganhar, controlar o jogo na segunda parte (onde se esperava a natural reação ofensiva alemã), baixando o bloco, passando a jogar em organização defensiva e não em pressão, tentando congelar o jogo a partir do rigor das coberturas.

Perdeu, assim, o poder de saída/transição e contra-ataque, e acabou enfiada na sua caverna defensiva. Já lhe tinha sucedido o mesmo em Manchester. A qualidade de jogo (intensidade colectiva e talento individual) que possui não o obriga a isso.

É natural, a ganhar, proteger-se mais atrás da linha da bola, mas este Mónaco só existe na sua versão de qualidade competitiva com a sua personalidade. Não é capaz de se mascarar duma equipa diferente. Ou controla sendo sincero consigo mesmo ou perde o controlo do jogo quando tenta meter ideias que se sobrepõem à sua personalidade.

O jogo de Dortmund foi, aliás, um teste a esses princípios de jogo antes da qualidade dos jogadores, porque lhe faltavam titulares base (a âncora de recuperação e poder no meio-campo Bakayoko e os laterais que fazem voar a profundidade pelas faixas, Sidibé-Mendy, visto os alas, Lemar-Bernardo Silva jogarem os dois por dentro). Mesmo assim não tremeu na sua personalidade. Moutinho soube resgatar o seu futebol de controlo de ritmos e na frente Mbappé continua a "voar baixinho”. Acabou por ser ele, na tal fase de “concessão de personalidade”, a ganhar o jogo, aproveitando um erro alemão. É a maturidade aos 18 anos. O drible ao mito da experiência.

Este onze de Jardim tem as duas coisas: personalidade e qualidade. Não tem tanta necessidade de se adaptar estrategicamente aos adversários como, durante os jogos, muitas vezes faz. Tem muito mais valor do que isso. Tem o valor da sua personalidade construída.

 

Ronaldo e os olhos de Zidane

Cada vez mais, a produção estratosférica de Ronaldo necessita dum controlador de “conta-quilómetros de jogo” para se manter no nível alto que irrompeu em Munique. Por ele, não duvido que jogaria todos os jogos, todos os segundos. O passar dos anos exige. no entanto, uma nova sensibilidade de gestão física. É onde penso que entra a importância de ter nesta fase da sua carreira um treinador como Zidane.

Depois dos choques com Mourinho e Benitez, a arte do silêncio comunicadora de Zidane impõe-se pelo que ele representa. Ou seja, Zidane pode falar de igual para igual com o ego de Ronaldo e em vez de lhe dizer como tem de jogar num plano táctico-técnico, dizer-lhe sobretudo como tem de fazer para estar ao mais alto nível físico-técnico para depois o mostrar em campo nos grandes momentos.

O ego dos craques do presente estoura com qualquer tecto de balneário (e treinador). Zidane é o treinador-gestor ideal para um balneário e Ronaldo um jogador que faz do ego o alimento sucessivo para cada 90 minutos.

O jogo de Munique pode ser visto pela táctica, pelo penalty falhado, pela expulsão de Javi Martinez. Eu vi-o pela exibição de Ronaldo através dos olhos de Zidane.

Os “velhos da tribo”

Todos querem ter a bola, mas não no sentido da posse. Querem a bola para a trabalhar em colectivo. Depois, soltam-na rapidamente. Uma “posse rápida”. Quando a perdem recuam, organizam-se e pressionam. É a Juventus de Allegri. Fazer isto contra o “bipolar” Barcelona de Luís Henrique torna todo o seu modelo mais adulto.

É daquelas equipas que parece estar em campo como os “velhos sábios da tribo” que têm respostas para tudo. Numa aplicação prática futebolística desta metáfora, esta imagem traduz-se em diferentes jogadores capazes de dar... diferentes respostas conforme pede o jogo (e locais onde se disputa).

Desde a garra física de Chiellini ao jogo de desmarcações de Dybala, ou poder de Mandzukic, escondido desde uma ala (o seu posicionamento é o acto de maior intriga táctica da época), até à definição de como sair a jogar, o local onde a equipa terá mais duvidas (e por isso muda tanto). É onde vejo que um jogador como Pjanic pode ser (se protegido por perto num duplo-pivot assimétrico por Khedira ou Marchisio) a melhor solução, porque é aquele que melhor expressa tecnicamente esta ideia de respeito igual pelos espaços e bola.

Olhar vazio e parado

O Barcelona voltou a cair dando as mesmas más sensações que tem transmitido quando na versão de visitante. Para além do problema colectivo que emerge no meio-campo (sem a expressão de outros tempos), o mais perturbante é olhar para o campo e ver como Messi reage a tudo isto.

É uma perturbação que resulta do muito tempo que o vejo quieto, andando a passo, quase como se tudo aquilo não fosse nada com ele. Antes havia Xavi para o chamar para o jogo (via-o assim, metia-lhe quatro bolas e obrigava-o a acordar). Agora podia aparecer Iniesta nessa missão, mas raramente o vemos no jogo a procurar Messi nesse sentido.

E aqui o problema já é colectivo, no sentido de ver como num onze deste nível, em crise de operacionalização de identidade, não se cria uma “pequena sociedade” mais ativa que podia salvar a global. Iniesta e Messi parecem viver em mundos diferentes na mesma equipa, perdida em campo. Quando longe do Nou Camp, todos os adversários parecem maiores. .