De Que São Feitos os Médios

30 de Março de 2017

Quando se chega aos momentos dos grandes jogos, aqueles em que se sente o poder do adversário ter a mesma (ou superior) dimensão, a “tecla táctica” onde mais se bate é no meio-campo.

A razão é simples: sente-se que está aí o “centro de controlo do jogo”. Em face das forças em confronto, é impossível dominar como habitualmente se faz contra o resto dos adversários dito “normais” em que a afirmação no jogo está essencialmente em atacar. Os clássicos, pelo contrário, encaixam na primeira frase do texto.

Para ganhar é preciso controlar, porque ninguém parte do principio que vai dominar. Durante quase toda a época os grandes pensam em dominar os jogos como principio. Nos clássicos, o principio é controlar.

Neste contexto, o que faz verdadeiramente um médio ter tanta importância? É a capacidade de pensar o jogo nas suas diversas vertentes e alternar essa forma de olhar para ele (em posse a construir, sem posse recuperando/pressionando) de forma rápida sem oscilar a produção.

O médio é feito para pensar várias coisas ao mesmo tempo. O futebol moderno cultiva a teoria de todos defenderem mas ninguém como os médios de raiz (não os adaptados) percebem isso desde o “berço táctico”.

Por isso, no jogo de controlo de, digamos, “domínio do poder de recuperação”, André André cresceu tanto de influência no onze do FC Porto nesta fase decisiva da época. Mesmo metido espaço do nº10, ele não é o médio mais ofensivo, ele é o médios mais... subido (adiantado) no terreno. A razão é exatamente de garantir essa permanente pressão e mudança de “chip” rápida de como pensar o jogo.

Por isso, o sistema do Benfica quando chega a este tipo de jogos entra no dilema de sentir ou não sentir a necessidade de meter um “terceiro médio puro” no onze para ganhar maior poder de pensamento alternado para os diferentes momentos do jogo. Sem controlar o seu “sistema nervoso central” dificilmente poderá ter o jogo do seu lado e é difícil com a atual limitação de ritmo de Jonas fazê-lo sem mexer no onze-base.

Nesse sentido, a capacidade de Pizzi poder ser um terceiro-médio, e não o segundo-pivot estilo “nº8 livre”, é cada vez mais um pensamento táctico que faz sentido no jogo de equilíbrios e dinâmicas benfiquista defesa-ataque-defesa (flancos-zonas interiores-flancos).

Está perdido no tempo, o que Pizzi dava a partir duma faixa nesse jogo de saber “ir para dentro” quando era necessário. A opção pelos dois extremos puros alarga a equipa (e dá mais profundidade nas faixas) mas retira-lhe poder no “jogo interior” que é, nestes jogos, onde se instala a “torre de controlo táctica”.

E quem está nesse comando são os médios. Os jogadores com “mais cérebros” para usar. De André André a Pizzi.