De Simeone a Zidane: Lisboa-Milão “voo 2014-2016”

30 de Maio de 2016

Olhamos para Simone e parece que já lhe conhecemos todo o seu interior, corpo e alma, de treinador. Como sente, pensa e reage ao jogo. No carácter e na táctica. Olhamos para Zidane e ainda vemos o jogador, ainda o imaginamos a fintar em gestos de “playstation”. Fisicamente está igual, já era careca e nem engordou como é natural aos jogadores após acabar a carreira. A verdade, porém, é que fisicamente, ambos parecem mesmo iguais aos tempos de jogador. Ora olhem bem para as fotos deles desse tempo aqui por cima. Pois é, o tempo pode mesmo afinal parar?
Regressemos à análise táctica: ainda não consigo verdadeiramente dizer o que vale o Zidane-treinador. Os jogos em que orientou o Real pós-Benitez, esta época, deixaram boas sensações em vários momentos, mas todo este seu trabalho merengue sempre foi visto, desde o inicio, coma a condescendência duma “missão-controlo de danos”.
A sua principal marca foi um “upgrade táctico” a meio-campo, traduzido na fórmula-Casimiro, fazendo um triângulo no sector com Kroos-Modric a interiores e mais presos posicionalmente a espaços recuados. Terminava, assim, com os desequilíbrios provocados pela ideia de acrescentar um quarto elemento ofensivo (estilo Isco ou James) ao trio Bale-Benzema-Ronaldo. É curioso ver, nesta perspectiva, como um treinador conservador como Benitez, na essência, acaba por cair, em termos tácticos-estratégicos, por ter ido contra muitos desses seus princípios passados, só para tentar conquistar a bancada. Mas isso já é da pré-história desta época.
Agora, já descodificado o universo-Simeone, a questão que se coloca para esta Final é se, para lhes ganhar (ao mesmo “exército de futebol” que eliminou as “máquinas da posse” de Barcelona e Bayern) o Real de Zidane irá conseguir ser mesmo uma... equipa. Ou melhor, se conseguirá ser “mais equipa” do que este At. Madrid.

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Poderão dizer que a Final também se pode decidir pelo poder desequilibrador de Ronaldo. É verdade, mas isso são só projeções de jogadas, não é a projeção do.. jogo. E se até tentarmos ver este jogo como um “remake competitivo” do que foi a Final de Lisboa, também nesse caso se viu que foi a forma como Ancelotti mexeu e como Modric, e sobretudo Di Maria, pegaram no jogo, por dentro e depois também por fora, que fez o Real pressionar, pressionar... até chegar ao golo.
Este jogo tem muito para Zidane incorporar o que foi a cabeça de Ancelotti nesse jogo. Simeone não irá mudar na essência, mas a inclusão de Saul neste novo-onze dá-lhe uma variante de movimentos que antes não tinha. Ele é o jogador que taticamente mais acrescentou à equipa, porque garante o mesmo rigor defensivo sem bola, mas aumentou a profundidade do jogo ofensivo, interior ou exterior, em complemento com o melhor avançado móvel que Simeone teve (e desenvolveu) desde que está em Madrid: Griezmann. Joga pela faixa direita e explode, joga no centro e foge em profundidade, joga na esquerda e rende. Joga em qualquer lugar e faz a diferença.
Saul e Casemiro são, assim, tacticamente, os novos elementos que, dois anos depois, fazem a táctica e a dinâmica de Real e Atlético serem hoje, em espaços específicos, algo diferentes. No resto, as bases permanecem.
A equipa de Simeone existe antes, portanto, até da palestra. A de Zidane tem de ser construída durante a semana e até no túnel para não voarem egos.
Será uma Final de treinadores-jogadores, ainda no sentimento que têm quando vivem o jogo de pé na berma das quatro linhas. Dentro do campo, ganha a equipa que tiver um “E” maior no plano táctico e técnico do termo. Sobretudo, apesar de se falar tanto de avançados, na inteligência a defender para, de acordo com os seus estilos tão antagónicos (definidas as zonas de pressão) atacar depois melhor.

sergio ramos

A raça como um ato de fé

No inicio era o “chico” de raça do Sevilha que, com 18 anos, chega ao Real Madrid. Cabelo comprido, nada de barba e pede o 4 que era de Hierro. Entra como central onde todos, a seu tempo, acabam por ser assobiados. Quando hoje lhe perguntam onde é mais débil, diz que “o Madrid faz-te mais duro”. Aprendeu a sobreviver. Será o que o fez mais duro em campo. Nunca ninguém foi tantas vezes expulso (20) na história do Real. Será também o que o faz ir às bolas impossíveis, como no cabeceamento ao minuto 93 em Lisboa. Nesse dia fugiu a Godin. Fez o golo de uma vida. Podem existir dois golos de uma vida?

Gabi

Todos os dias, algo de novo

"A obsessão de que todos os dias captemos algo de novo". Assim Ponzio definia Simeone-treinador na Argentina (onde foi do céu, como campeão do Estudiantes, até ao último lugar no River). No At.Madrid sente-se como todos estão preparados para poder viver esses dois estados, tão opostos, mas tão próximos no futebol. Quando, suspenso, viu os últimos jogos da Liga na bancada, quem no banco tinha o intercomunicador no ouvido era um... jogador, que então passou a suplente. Gabi. Ouvia, reflexionava e levantava-se gritando para dentro do campo. Agora, continuará como “treinador”... no relvado.