Defender “dois” penaltys

23 de Janeiro de 2016

Não há nada mais dramático no jogo do que um penalty decisivo no último minuto. Abner marcou mal. Helton defendeu bem. Já não era relva naquela altura, era terra, areia, quando a sua palmada evitou o empate. Pouco antes, numa hesitação a sair, ia dando o golo de baliza aberta mas a bola, aos saltos nos montes de terra, acabou rematada tope por Uchebo. Uma jogada profundamente desengonçada a todos os níveis, como a entrada de Indi a soterrar Abner. Depois de ter goleado poucos dias antes o FC Porto via-se incapaz de ganhar o jogo de “segundas bolas” do Boavista e recuara. Era o mundo ao revés, até que surgiu a última jogada, o último remate, o última defesa mas não a última imagem do jogo.
Helton é uma personagem que criou um universo particular dentro do nosso futebol. Para além das defesas, é um “comunicador das balizas”. Mesmo quando está no banco ou o jogo já acabou. Se calhar mesmo mais nesses momentos porque durante os 90 minutos em campo é guarda-redes apenas. A forma como procurou o miúdo que falhara o penalty e falava com ele pode ter a tal “força viral” de que hoje tanto se fala pelo que vale mais mesmo é olhar para a foto. O rosto do futebol está condensado naquele instante. Como se defendesse outro penalty. Mais importante.
O jogador tem duas formas de falar: através do seu jogo e através das suas atitudes no jogo. Helton percebe como um jogador também tem de ser uma “marca”. Ter algo que o distinga dos demais. Que deixe marcas. Porque apenas alguns sabem levar o momento para além do tempo em que acontece.