“Devolvam-nos o futebol!”

19 de Junho de 2016

Não há dúvida. A Espanha joga um jogo diferente dentro do grande jogo que é o futebol. Por todo o Europeu já se começa a sussurrar o que se pode tornar um grito, como aconteceu há quatro anos: “devolvam-nos o nosso jogo de volta!” Aquele onde diferentes estilos, tácticas ou sistemas se defrontam, mas todos conseguem ver a bola e a poder ter (mais ou menos) ganhando ou perdendo. A Espanha joga “outro jogo”, muito diferente, que, por acaso, encontrou território fértil dentro das quatro linhas de um relvado de futebol.

Como se fosse aquele miúdo rico e caprichoso do bairro que, de repente, porque é o dono da bola, pega nela e decide que acabou. “Ninguém mais joga, vou para casa”.

Iniesta lembra mais o “boneco da Milupa” do que esse miúdo arrogante, mas o seu comportamento em campo é quase igual. Vai dar ao mesmo. Pega na bola, leva-a atada por uma corda a bota, mete-a por cima da cabeça dos adversários, vai buscá-la mais à frente e faz passes que só ele e os seus amigos entendem.

A Turquia tem uma boa equipa com tecnicistas de posse, mas mesmo assim não conseguiram perturbar este “parque de diversões espanhol” onde até um jogador que poderia ser, no estilo, um "objecto estranho", se tornou um membro por direito próprio da “banda do Iniesta”, como se tivesse sempre feito parte dela, Nolito, mais o tipo do miúdo truculento que tem sempre as calças rotas por fintar e cair muitas vezes quando o não consegue fazer e a bola fugir. Mas, agora, essa mesma bola já não lhe foge. Para o provar, fez um passe teleguiado (para a cabeça de Morata fazer o primeiro golo) que se não tivéssemos visto que foi ele que o fez, diríamos que teria sido o próprio “maestro Iniesta” a fazer.

Eu sei que este Euro ainda está a começar e, de repente, tudo pode mudar, mas este impacto de estilo renascido já ninguém tira ao ego espanhol. A questão que se coloca, neste momento, é saber se este “outro jogo só deles” terá a mesma eficácia quando a exigência do nível competitivo dos adversários subir, sobretudo nos jogos a eliminar, a partir dos oitavos.

"Devolvam-nos o futebol!" gritam todas as outras seleções do Euro. Será que os espanhois irão ouvir?

Eder Itália

O destino de Éder

Dentro do mesmo mundo paralelo dos “outros tipos de jogo”, a Itália também tem o seu espaço próprio. A Suécia conseguiu-a encarar olhos nos olhos tacticamente, tornou o jogo quase em xadrez durante muito tempo, mas, na hora da verdade, os italianos souberam arrancar o resultado pela raiz perto do fim do jogo. Uma “jogada de esperteza” que nasce de um rápido lançamento de linha lateral e do arranque de um brasileiro naturalizado, que já está “italianizado” em todos os ossos do seu “esqueleto futebolístico”, tal a forma como recua para recuperar bolas. É o “primeiro defesa”, mesmo sendo avançado, luta por todas as divididas, vai no choque, batalha e não deixa depois que lhe tirem a bola por nada. É a raça de Éder.

A forma como quase em cima do minuto 90 foi para cima de quatro suecos e fez ajoelhar (literalmente) o maior deles todos, o monstruoso central Granqvist, para depois rematar fulminante, foi a expressão duma jogada que só seria totalmente entendida com o som da “cavalleria rusticana” como música de fundo.

Nessa “cavalgada com golo” de Éder, a Itália cumpriu o destino das suas “históricas goleadas” por 1-0. Ganhou jogando também o seu “outro jogo” que não dá a ninguém.