Diário do Euro 10

15 de Junho de 2008

Porque nem todos sabem tocar piano

A bola ainda vai no ar, a aproximar-se dele, mas até já quase parece ir a medo. Quando a recebe, Koller não pensa em gestos de carinho. Assisto ao Republica Checa-Turquia e, nesse momentos, o futebol parece outro jogo, distante da sua essência técnica e até táctica. A bola Entra no seu espaço aéreo e, no choque, nas alturas, surge então o duro central Servet. Crash! A colisão provoca contusões no jogo. Um jogo de futebol tem muitos duelos. De contornos diferentes. Os mais atraentes talvez sejam os que fogem ao lado rudimentar do choque. Falou-se muito no bom jogo de posse da bola da Croácia frente à Alemanha, mas o momento mais malandro terá despercebido nas análises mais tácticas. Foi quando o pequeno Modric (1,73m.) fez um túnel a Ballack (1,89m.) um gigante a seu lado. No fim, Modric falou do lance. “Só queria que ele começasse já a fazer uma ideia do que lhe espera na próxima época quando o Chelsea jogar com o Tottenham!”.

O duelo entre checos e turco não teve estas maldades tecnicistas, mas também meteu outros duelos no jogo. O melhor futebol desta Republica Checa está nas alas. Na dinâmica dos laterais (Grygera-Jankulovski) ou na verticalidade de Sionko. Terim leu bem o que lhe passara, bom e mau, nos jogos anteriores e mudou o sistema, do 4x2x3x1 para o 4x4x2, enquadrando melhor o seu jogador mais perigoso: o veloz Nihat, antes avançado isolado, muito em cima dos centrais, sem espaço para embalar desde trás, como poderia fazer jogando nas costas de um 9 mais clássico como Senturk. Custou a descobrir o espaço.

As equipas são como o caminho Fazem-se caminhando. Descobrindo os mundos privados de cada jogador, descobre-se a melhor forma de os combinar em campo. A diferença, porém, surge em geral quando um elemento estranho entra no momento decisivo do jogo e faz a diferença. Como ver o poder de Koller a cabecear nas alturas. Como ver Nihat a sprintar. Como ver Modric a fazer um túnel a Ballack.

Os guarda-redes têm alma

Diário do Euro 10É injusto, mas são homens que escapam às análises tácticas. Os guarda-redes, o jogador solitário. Fala-se em 4x3x3 ou 4x4x2. Devia falar-se em 1x4x4x2 ou 1x4x3x3. Mea culpa. Este Europeu tem revelado os seus guarda-redes clássicos. Destaco, na elite, quatro: Buffon (Itália), Van der Sar (Holanda), Casillas (Espanha) e Cech (Republica Checa). Como quinto elemento, Boruc (Polónia). Para mim, ninguém protege tão bem as redes como estes cinco keepers. Mas os guarda-redes não se esgotam entre os postes. Na reposição da bola em jogo, é nesses momentos que se torna um jogador de equipa até nas transições.

Outra face dessa influência no colectivo está na sua capacidade de orientar o posicionamento da linha defesa que está sempre a ver de frente.

Nas promessas, Akinffev (Rússia), 22 anos, cresce de jogo para jogo. Vê-se isso ate como reage quando sofre um golo. Lembra um tese de Carrizo, velho portero do River, para quem era fácil avaliar a personalidade e a categoria de um guarda-redes: Se estão sentados, de culo, não servem. Se estão levantados, de pé, são bons. Tentem este exercício no Euro e avaliem assim os guarda-redes…