Diário do Euro 11

16 de Junho de 2008

Uma «bomba» na cimeira da força

Diz a lenda que os velhos argentinos costumavam dizer aos seus filhos, em tempos de carências, que eles eram demasiado orgulhosos para serem pobres. Acho esta frase com um poder secreto enorme. Porque há algo sempre superior a nós próprios. Mesmo que escondido no nosso interior.

Penso nisso várias vezes quando vejo equipas ditas mais fracas a defrontar outras mais fortes, claras favoritas. A Áustria fica longe da América do Sul, mas acredito que um pensamento semelhante terá percorrido a mente dos jogadores austríacos antes de defrontar os tanques do onze alemão neste Europeu. Já não existem Krankl, Prohaska ou Pezzey, estrelas dos anos 70/80, mas há ainda uma personalidade para um estilo. E é nisso que se baseia o seu jogo. Forças e fraquezas. A honestidade táctica com que entrou em campo, levou-a a esconder as suas linhas num compacto 5x4x1, mas em cada jogada, em cada passe, os seus jogadores punham intensidade total no jogo. O facto de ter variado de sistema nos três jogos (dependendo de jogar com defesa a «4» ou com três centrais) não lhe retirou capacidade de acelerar no contra-ataque. Falta-lhe é, depois, precisão para acertar o ultimo passe. E, já agora, também o penúltimo. Fica a imagem de Harnik, saído das sombras de Bremen, muito rápido a ir para a baliza, os toques elegantes do 10 Ivanschitz, embora lento, e os bons cortes do jovem central Prodl.

Diário do Euro 11Mas custa muito ver a força derrubar a coragem. Faz mais sentido, estético e a moral, que seja a técnica, o perfume da arte a fazê-lo. Mas não digam isto a alemães, sobretudo quando um deles surgir com espaço para rematar a 30 metros da baliza. Gomez falhou um golo de baliza aberta a um metro da linha de golo, levantando a bola de uma forma quase impossível, mas na potência do remate de Ballack na marcação de um livre de muito longe, via-se concentrada, no raio x da câmara lenta, a força musculada de um tiro de canhão. É o futebol jogado de botas cardadas.

Treinadores: caçando almas

Joachim Low foi expulso, subiu para a bancada e foi recebido de pé pela chanceler Angela Merkel. Parecem não entender a ousadia de um árbitro espanhol que, no mesmo momento, também expulsou Hickersberger, o técnico austríaco, logo atrás, também aplaudido pela tribuna de honra. O futebol oferece muitas faces em cada jogo. Este Europeu tem uma moldura atraente em torno das quatro linhas. Os treinadores cultivam estilos diferentes, mas respiram personalidade nos grandes planos. O croata Bilic salta, exulta e parece capaz de virar o mundo de pernas para o ar. Scolari carrega o sobrolho, mas vê-se a cumplicidade com a equipa.

Hiddink transmite-me mais incerteza. Parece sempre duvidar do que a sua equipa pode fazer em campo. Será apenas uma sensação, talvez. Domenech tem a expressão de uma pedra. Aragonês parece estar junto à lareira. Donadoni nem precisa de falar para se perceber o drama do Calcio dentro de um fato Armani. Van Basten mantêm o mesmo estilo que tinha quando estava em campo como ponta-de-lança. São imagens que devoram transmissões televisivas. Como tentassem ler a alma de quem filmam. Acho que às vezes lêem mesmo.