Diário do Euro 12

17 de Junho de 2008

A bola no centro do universo

Extinto Zidane, a França decidiu montar o seu reciclado 4x4x2 sem um médio-centro criativo. É difícil conceber uma equipa a tentar pensar o jogo em campo sem um jogador destes. Optou antes por um duplo-pivot defensivo Makelele-Toulalan que, na maior parte do tempo, sobrepôs-se no mesmo espaço. No banco, porém, um baixinho, também com raízes argelinas, via o jogo com o olhar triste. Era Nasri. Um criativo que podia ser esse novo homem na segunda linha/fase de construção. Quando Ribery se lesionou e Nasri entrou contra a Itália, pensou-se que chegara por fim a sua hora. Mas há momentos em que o destino parece muito escrito. Pouco depois, Abidal era expulso e Domenech para reequilibrar a defesa, decidiu tirar um médio. Tirou Nasri. Durou 16 minutos o seu sonho de mudar o destino.

A Itália também precisava de um jogador destes para por ordem no seu jogo no mesmo espaço. Surgiu uma reminiscência de Pirlo. No início de carreira, ele fora um 10. Tornara-se então no chamado regista recuado. Contra a França, ficando De Rossi no espaço do trinco, Pirlo sempre que pegava na bola como que voltava à sua vida anterior. E os passes saiam com igual precisão.

A precisão é, aliás, uma palavra chave na execução do melhor futebol. Um exemplo divino: a recepção de Luca Toni a quase parar, todo no ar, perna esticada, uma bola longa, longa que caia no coração da área francesa entre o central e o guarda-redes. Quando lhe tocou, com a ponta da bota, ela quase ficou logo submissa a seus pés. Penalty. Golo. Outro exemplo notou-se quando Pirlo saiu e o meio-campo italiano perdeu precisão na posse de bola, preterido antes por um jogador mais para pressionar, Ambrosini. A opção entre jogar ou pressionar não é assim tão filosófica. Tem reflexo evidente no jogo. A Itália continua no Euro, ultrapassando, ironicamente, o onze da terra dos vampiros, a Roménia. Deixaram o monstro, piano, piano, regressar à vida. Agora aguentem com ele.

As duas metades do jogo

Diário do Euro 12A conversa de balneário teria de ser decisiva. Com 0-0, a Roménia voltava ao relvado a ter de ganhar à Holanda para seguir em frente. O onze laranja jogava bem mas quase em piloto automático. Como poderiam os romenos tomar a iniciativa? Difícil. Quando a bola ia para Mutu, no flanco esquerdo, Boulahrouz caia-lhe logo em cima. Em 4x1x4x1, Piturca mantinha as coberturas defensivas (o ponto forte da equipa em todo o Euro) sempre completas. O guarda-redes Lobont vai mantendo a equipa no jogo. A honestidade competitiva do futebol holandês vive muito para lá da beleza do seu jogo. Quando Huntelaar faz o 1-0, os festejos transferem-se para Itália.

A Roménia tenta voltar ao jogo mas é difícil mudar o chip mental de uma equipa que desde o inicio do Euro foi programada para antes de tudo tentar gelar os jogos e jogar o… jogo defensivo. Quando obrigada a jogar a outra metade do jogo, a ofensiva, a equipa, tirando os rasgos de Mutu, nunca soube esticar-se. Fica o apontamento de terem um dos melhores laterais-esquerdos do Euro. Razvan Rat. Joga na Ucrânia, no Shakhtar e merece que clubes maiores olhem para ele.