Diário do Euro 13

18 de Junho de 2008

O jogo, entre o alvo e seta

Sou um devoto da táctica, mas não tenho dúvidas que, mesmo na visão mais cientifica do jogo, a melhor estratégia o bom futebol) está sempre escondido nos melhores jogadores. Por isso, preparo-me para assistir ao Rússia-Suécia e a ansiedade que me domina está em esperar que a bola venha ter aos pés de Arshavin ou Ibrahimovic.

Até o maior talento necessita de uma ordem que o entenda. Uma ordem criativa. Sem criar-lhe carris. Basta apenas indicar-lhe os melhores caminhos. E deixá-lo viver. É o que a Rússia faz com o pequeno Arshavin. O seu primeiro toque no jogo, é um passe longo que rasga em diagonal o campo de um lado a outro. Precisão total. A segunda aparição é um zigzag pelo meio da zona de pressão sueca, finta e passe. Desequilíbrio total.

O futebol sueco não dá a mesma moldura a Ibrahimovic. Por isso, limita-se mais à área e suas janelas para o jogo. Isso leva quase os seus médios a usar o jogo directo. Assim, uma das suas primeiras aparições no jogo é bem lá no ar, voando sobre o central russo Kolodine, devolvendo-a à relva, mas sem assustar a baliza. Tenta ir buscar a bola a zonas mais recuadas, mas de cada vez que o faz, fica longe do seu habitat preferencial.

Diário do Euro 13Mas a velocidade com que a Rússia faz circular a bola dribla qualquer iceberg. Como colocassem vodka no jogo. Zhirkov e Zyrianov entendem o conceito de ordem criativa na perfeição. E Arshavin aparece também na área. O seu golo culmina uma jogada só possível de ser vista de forma completa ao som do Kalinka.

Alguém disse, no passado, que o caminho faz-se entre o alvo e a seta. É uma boa imagem. É também um pouco assim no futebol. Um espaço oco por onde fura o talento sem alterar as coordenadas da ordem. Seguir o jogo desta Rússia seguindo Arshavin é um bom meio de entender este conceito de viver dentro de um relvado de futebol.

O meu pequeno cérebro

As equipas que jogam sem um enganche criativo na segunda fase de construção entre-linhas nas imediações da área estão condenadas a viver sem ideias estruturadas quando entram naquele que é o supremo espaço do último passe. Esqueçam o nº10. É já de outro tipo de jogador que se fala. Deco e Van der Vaart, de forma mais natural. Iniesta e Kranjcar (ou Modric), vindos de outras zonas. Sem eles é como chocassem com uma parede invisível quando surgem nesse pedaço de relva.

O futebol mudou mas os espaços continuam lá. A questão é saber com ocupá-los de forma (ritmo e intensidade) diferente. A França jogava com extremos e dois avançados, mas, sem esse homem, nunca os encontrou. Ou melhor, só os encontra de forma contra-natura. A Itália continua em busca desse homo sapiens com bola. Onde estará escondido o perfume de Del Piero?

Conclusão: Se falta criatividade, isto é, a possibilidade de resolver o mesmo problema de formas diferentes durante o mesmo jogo, nenhuma equipa consegue desequilibrar um jogo. Limita-se a sobreviver em campo.