Diário do Euro 14

19 de Junho de 2008

O melhor de dois mundos

Nenhuma escola de futebol nasceu e cresceu apenas de geração espontânea. Sem perder a identidade, os cruzamentos de estilos, as influências de uma das outras, foram, em muitos momentos da história, o grande motor da evolução. Durante muitas décadas, porém, m território parecia inexpugnável. A Rússia, patriarca da velha URSS. Apesar do valor dos seus jogadores, era difícil ver naquele ideal de jogo temível, mas supra-colectivista, uma individualidade a destacar-se mais.

A guerra fria também se estendia aos relvados de futebol. Era fácil imaginar, porém, o que poderia acontecer se isso acontecesse. Se nele surgisse um técnico que, respeitando as bases, lhe acrescentasse novos aromas. É o que está a suceder com Hiddink. O futebol russo mantêm a velocidade de resolver a transição defesa-ataque em processos simples de dois-três-quatro passes e já está na área adversária, mas, nessa ideologia, surge também agora os princípios da posse e circulação de bola, virando jogo constantemente, típicas da escola holandesa.

É difícil conciliar o melhor de dois mundos, mas quando ele surge, nem que seja só por 90 minutos, é o futebol na sua dimensão total. Um pouco como o Zenit, também treinador, nos mesmos princípios, por outro holandês (Advocatt) conseguiu na Taça UEFA. A mescla de escolas russa-holandesa parece feita uma para a outra. Um casal perfeito. Por isso, o choque dos quartos-de-final será quase um encontro de irmãos dos novos tempos.

Tal como na vida, social e politica, a Rússia começa a escrever novas páginas no seu enorme livro de futebol. Sem esquecer o passado, antes partindo dele, para construir com o futuro, aberto a outras influências, capaz de entender a sua essência e dar-lhe um toque decorativo inovador, mas sempre fiel às suas raízes. É a nova obra de Hiddink.

A queda do futebol nórdico

Diário do Euro 14A lesão de Ibrahimovic terá enevoado ainda mais o futebol sueco, mas nenhum jogo resiste à falta de qualidade técnica e boas ideias. O futebol nórdico perdeu a vantagem física que conseguia ganhar em alguns confrontos e a excelente cultura táctica que a maioria dos seus jogadores ainda denota já não chega para compensar o decrescer da sua qualidade técnica individual. A Suécia deste Euro, foi quase como tentar fazer recuar o tempo. Mera ilusão. Larsson aceitou desafiar os seus próprios limites e…os limites venceram. Os melhores anos de Ljungberg já passaram. Elmander, que poderia ser a melhor solução para jogar no centro de ataque (seu lugar de origem) ao lado de Ibrahimovic, passou os jogos desterrado no flanco direito. Os médios-centro defensivos, Andersson-Svensson, nunca conseguiram jogar também o jogo ofensivo.

No fundo, a ideologia de jogo sueco nunca conseguiu sair do papel. O sistema cristalizou-se e encravou na transição defesa-ataque. Também a sua escola necessita de novos aromas para virar a página do seu livro de futebol.