Diário do Euro 15

21 de Junho de 2008

Erguendo muros no relvado

A mesma equipa, diferentes jogadores, no mesmo sector, marcam diferentes ritmos de jogo. Penso nisso ao ver jogar a Croácia. A bola vem parar aos pés de Kranjcar e perde velocidade. Há uma pausa e o passe sai colocado, pensado. A bola vai ter com Modric, e acelera, os seus movimentos ganham forma de serpente. Os dois dividem o corredor central, à frente do trinco Kovac. Pela maior velocidade a ir e voltar, Modric acaba por fazer a maioria das transições. A ideia que dá, porém, é que quando recua parece que desaparece do jogo. É compreensível, pois o forte do baixinho esquivo croata é a forma fácil como sai do um para um em zonas de desequilíbrio perto da área adversária.

O treinador adversário lê estes diferentes ritmos e coloca um jogador para os seguir. Foi o que fez o astuto Terim ao colocar Altintop (antes usado como lateral-direito) a médio centro de contenção vigiando os movimentos de Modric e os tais espaços onde o jogo croata podia acelerar. Sacrificar um jogador para que o resto da equipa possa viver. Postas as coisas nestes termos parece uma estratégia de grande carga dramática, mas, vendo bem, isto sucede em muitas equipas. Simão, noutro contexto, terá sentido um pouco isso pelas obrigações de transição defensiva que teve contra a Alemanha. No caso da estratégia turca, a forma de avaliar se a cobertura estava a resultar, era ver como o jogo de Modric se tornava mais lento.

Diário do Euro 15Mais uma vez, um jogo a tornar-se demasiado sério, dominado pelo seu lado de xadrez táctico. Como se erguessem vários muros invisíveis ao longo do relvado. Os jogadores ditos secundários acabam por parecer os mais importantes na equipa. Não se trata aqui da mera questão do operário que liberta o artista. O grande problema acaba por ser que o esforço despendido para recuperar a bola, não é depois proporcional ao que depois se faz com ela.

A obrigação da bola

Há, no plano táctico do jogo, algo que, desde há muito, me faz confusão. Falamos em obrigações e logo pensamos no jogador em missões defensivas. Falamos em criatividade e logo pensamos em missões ofensivas. No primeiro, imaginamos o jogador nervoso, preocupado sobretudo em não falhar. No segundo, imaginamos o jogador mais solto, à espera de receber a bola para se divertir. Penso que esta divisão é o pior que pode acontecer em campo a uma equipa. Foi, no entanto, o que senti durante o jogo de Portugal contra a Alemanha. Como uma nuvem negra cobrisse sempre pelo menos metade do onze.

A melhor forma de ultrapassar esta divisão de atitude é ter uma posse de bola o mais alta possível. Isto é, o mais longe possível da nossa área. Há jogadores que sabem isto, mas têm dificuldade em tomar as decisões certas se pressionados. Outros, parecem que vivem à margem disto tudo e resumem qualquer destas missões a uma palavra: inteligência. Técnica e táctica. Passe e ocupação do espaço. Numa palavra: Deco.