Diário do Euro 16

22 de Junho de 2008

A grande ideia do bom futebol

Não acredito em conflitos de gerações. Acredito, apenas, em boas ou más ideias. No futebol, é como as ideias fossem questão de linhagem futebolística. Vendo juntos na conferência de imprensa da Holanda o treinador Van Basten e o jogador Van der Vaart ninguém percebeu a diferença de gerações. Até que os questionarem sobre o golão que o velho nº9 marcara a Dassaev no Euro 88 e quando o novo nº10 respondeu brincando com o técnico, se percebeu a passagem do tempo: “só tinha cinco anos, já o vi, mas acho que foi sorte!”. A cumplicidade entre Van Basten e Van der Vaart é uma questão de ADN do futebol holandês

Nessa encruzilhadas do tempo, a actual selecção da Rússia é quase uma ironia. Entre o coronel Lobanovski, o homem que nunca mudava de expressão, e Hiddink, que vive o jogo ansioso, há um abismo a separá-los. Na relva, o jogo tornou-se mais solto, mas há como um respeito pelas bases. Mantêm o saber colectivo, deu-lhe mais imaginação. Arshavin é o maior símbolo desta nova era, mas o jogador que melhor une estes dois tempos, evitando conflitos, é o médio mais recuado do seu 4x1x4x1. Semak. Cobre o espaço posicional e cumpre depois o grande sonho do pivot-defensivo em campo: deixar de o ser. E passar a pensar o jogo ofensivamente. Percebeu-se isso no centro para o golo de Pavlyuchenko.

A ironia resulta do grande intruso deste confronto. Hiddink, claro. Os princípios holandeses atravessaram o relvado e completaram os pensamentos russos sobre o jogo. Como que roubaram as boas ideias e passaram também eles a cultivar a posse e a circulação de bola com transições rápidas defesa-ataque. O ADN do futebol russo do Sec.XXI tem sangue laranja. O Holanda-Russia tornou-se, assim, quase num jogo de espelhos. É hoje a face mais visível dos novos estilos e caminhos do mapa da Europa futebolística.

Os penaltys como destino

Diário do Euro 16As decisões por penaltys não são uma lotaria. Não é que se tratem também de uma ciência, mas exigem várias qualidades. A execução técnica, claro, em primeiro, mas também o controlo da mente. À medida que caminha para a bola, o marcador imagina-se por antecipação a rematá-lo. Há quem vá com a imagem do êxito, outros deixam-se dominar pelo medo, vêem-se a falhar. Maradona, Baggio, Platini, Beckham, Cristiano Ronaldo, todos grandes estrelas que se assustaram nessa hora em que o jogo perturbantemente se decide depois de ter acabado. São momentos em que o medo cobre o estádio, mas há casos que já parecem mesmo escritos. Depende de como as equipas chegam a essa decisão. Porque falharam a vitória ou porque conseguiram empatar.

Isso pode fazer toda a diferença no estado anímico dos jogadores de ambas. Sentiu-se isso no incrível Croácia-Turquia. Os croatas com o peso de terem deixado fugir a vantagem no último segundo. Os turcos com a aura de terem empatado no ultimo suspiro. Neste duelo, cada remate parecia apenas uma mera formalidade do destino. E foi mesmo.