Diário do Euro 17

22 de Junho de 2008

As raízes latinas do Itália-Espanha

O futebol latino entra no Sec.XXI com as mesmas bases que fizeram a sua história, mas há quem seja mais fiel a esse estilo secular do que outros. Parta o bem e para o mal. O Itália-Espanmha foi um bom exemplo para perceber essas duas realidades.

O futebol italiano tem códigos próprios. Em mais nenhum existem palavras-chave que, por si só, permitem identificar do que se está a falar. Por exemplo, imagine-se nestes dias numa esplanada de Roma ou Milão. Se numa mesa ao lado, ouvir dizer que os italianos nunca deixam de atacar e atacar, aconteça o que acontecer, é porque falam de mulheres. Se, pelo contrário, ouvirem dizer que o essencial é defender e defender, é porque falam de futebol. É uma caricatura, claro, mas, no futebol e na vida, já se provou que ela é real. Até podem de inicio ter outra intenção (no futebol, claro..) mas, depois, as coisas mudam. As selecções italianas (ganhando ou perdendo) nunca fugiram a esta ideia de Calcio dramático. Nem querem. Porque isso faz parte da sua escola atormentada pelo dilema de conciliar artistas. Esta Itália do Euro-2008 não tem, no entanto, esse problema.

Sem Pirlo, a maior ironia dos últimos anos na relva italiana, no seu meio-campo, mais do que médios com cultura táctica, vejo antes médios com educação táctica. De Rossi, Ambrosini, Aquilani e Perrota. Todos muito educados a cumprir o jogo de xadrez do treinador.

A Espanha cresceu muito no plano do chamado pisar táctico. Deixou de correr a arrastar a língua pela relva atrás da bola, para dar mais cérebro ao toque e passe. A sua escola técnica permite esse processo de lapidação estilística sem tremer os princípios. Senna, Xavi, Iniesta, Silva. Há mais salero nestes nomes, os donos do meio-campo espanhol, e no futebol que praticam. Fazem a bola mover-se com mais ritmo. Ganhar ou perder, já é outra questão.

O harmónio espanhol

Diário do Euro 17É muito difícil observar só um jogador pela televisão, pois, em geral, as câmaras seguem a bola, e, com isso, o jogador aparece e desaparece da imagem. Há um caso, porém, em que isso não acontece. Quer a bola esteja perto da sua área ou do adversário, no centro ou mais para a ala, ele praticamente nunca fica fora do ecrã: Xavi. É ele o dono do harmónio do meio-campo espanhol que faz o sector encolher-se, a defender, fechando espaços, e esticar-se, a atacar, abrindo espaços. Na frente, Torres e Villa, mal a equipa pega na bola atrás, vão-se embora para cima da defesa italiana, dando profundidade ao onze.

Aragonês treinou estes princípios até os tornar quase mecânicos. Até nas substituições que repete por volta dos 60 minutos. Tira Xavi e mete Cesc (com igual dom da ubiquidade táctica) e tira Iniesta, falso ala direito, e mete Cazorla, extremo direito mais puro. E o sistema (4x4x2) mexe-se. Ganha outra vida.

Tudo isto, para italianos e espanhóis, vive à margem da história dos penaltys. São as eternas raízes do futebol latino.