Diário do Euro 18

23 de Junho de 2008

Os números «inteligentes»

O Euro avança e, cada vez mais, o factor físico surge para justificar vitórias ou derrotas. A lado atlético é o caminho mais curto para justificar um resultado, mas esta não é uma questão pacifica. Não acredito em equipas cansadas e desconcentradas. A performance desportiva é muito mais do que isso. Não se trata de ser mais forte ou mais rápido. Trata-se de ser mais inteligente, táctica e tecnicamente. O que é um jogador desconcentrado? É um jogador que está em campo a pensar na renda da casa? Não, é um jogador mal colocado tacticamente e que, com erro posicional, prejudica a equipa. Ninguém ganha por correr mais, mas sim por correr melhor. Com critério. Por isso, ligo pouco às estatísticas no fim dos jogos.

Mesmo assim, vejo as do Holanda-Russia e reparo que um dos jogadores que mais correu, proporcionalmente ao lugar que ocupa, foi…Van de Sar. Correu 6,14 km. Como é possível um guarda-redes correr tanto num jogo? Em média fica pelos 4km. A maioria dos movimentos de Van der Sar são dentro da área, de um lado para o outro, quase como um felino numa jaula. Por este simples dado (um guarda-redes a correr muito) percebe-se como os quilómetros que um jogador corre são inócuos sem perceber o que a bola correu a partir dele. O mesmo sucede com os outros jogadores. Van der Vaart, o nº10, correu 14km. mas pouco pegou na bola e no jogo.

Olho então a Espanha e a frieza dos números ganha mais brilho. É o registo de Senna, um pivot-defensivo essencialmente posicional. Na primeira parte, contra a Itália, o onze mais táctico do mundo, ele fez 40 passes. Todos certos. 100% de eficácia. No final, regista, 120 passes e a eficácia baixa ligeiramente para os 91% de passes certos. Notava-se o desgaste estampado na face, o suor na careca, mas nada disso o desconcentrou tacticamente. Porque soube sempre como pensar. Como parar. Como jogar. Como correr.

O passe: A pausa russa

Diário do Euro 18Olha-se os quartos-de-final e parece que houve causa-efeito no facto das equipas que perderam terem feito descansar antes o onze titular. Não penso assim. Portugal perdeu com a Alemanha por deficiências tácticas e erros nas bolas paradas. A Croácia apesar da qualidade dos médios, voltou a não ter a mesma categoria nos avançados a rematar. A Holanda perdeu com a Rússia, porque os russos fizeram um jogo fantástico. Mesmo neste caso, com o onze russo quase a voar em campo, não foi o correr mais que o fez ganhar.

Fizeram, sem dúvida, um super-jogo no plano atlético, mas na hora de arrancarem para o contra-ataque o factor que fazia a diferença era quando a meio desse processo paravam para pensar. Segundos onde o portador da bola temporizava o jogo, os outros jogadores posicionavam-se, liam os espaços e depois moviam-se sincronizadamente (passe-desmarcação) desenhando linhas de passe que rasgavam a linha defensiva subida da Holanda. Tentem agora descobrir como quantificar esta a inteligência do jogador (e da equipa) com um simples numero. É impossível. Ainda bem.