Diário do Euro 2

07 de Junho de 2008

Pistas para encontrar o bom futebol

Ao longo da história, o seu futebol viveu sob a influência italiana, na raiz defensiva, e alemã, no jogo dividido, mas nunca criou um estilo próprio. Fiel a esta herança, a Suíça entrou no seu Europeu com novos aromas multiculturais. Na face da globalização, um miúdo cabo-verdiano no controlo do meio-campo: Gelson Fernandes, ao lado de Inler, foi o primeiro ladrão de bolas com visão defesa-ataque-defesa do Euro. Perderam porque o melhor futebol só tem voz própria se consegue o último elo: o golo.

Mas vendo o jogo e as diferentes filosofias em confronto, ficava algo de estranho no ar. Porque a equipa suíça mostrava saber trocar a bola. Vê-se nos pormenores dos seus jogadores. Quem passa a bola presta a seguir auxílio a quem a recebe. Apesar disso, apostava antes num contraditório jogo de transições rápidas, enquanto os checos procuravam um jogo de posse da bola mas sem ter um médio-centro organizador.

Em nenhum dos onzes existia quem pensasse o jogo. Só alas, Behrami-Barnetta contra Sionko-Plasil, e pivots muito recuados. Poderia Hakan Yakin ter feito a diferença a pensar o jogo. Com ele, passando a jogar em 4x2x3x1, a segunda linha refinou-se mas nas mais de mil formas de ganhar um jogo, também está uma defesa em linha que falha. 89 minutos controlados e um no limite do erro. Foi quando surgiu o tal ultimo elo. Uma ironia explorada por Sverkos.

Diário do Euro 2O futebol austríaco vive uma crise geracional desde os nos 80 de Krankl. Faltam novos heróis. Em Viena, com vestido de gala, é difícil não pensar nos velhos mitos quando no actual onze não se vê o brilho das estrelas. Questão de orgulho para Ivanschitz, o melhor jogador austríaco da actualidade. Entrar em campo como numa máquina do tempo e inverter a ordem natural das coisas. É que o talento necessita de confiança e, quando ambos se juntam, o bom futebol é inevitável. Eis uma boa forma de seguir Ivanschitz, o 10 da Áustria.

Croácia, no reino de Bilic

Antes de jogar, pensar como treinar. É a ordem natural da vida de uma equipa e seu treinador. Nas selecções, porém, muitas vezes é difícil entender o treino na sua total dimensão. Mais do que um treinador, existe um seleccionador. Porque quase não há tempo para treinar. Por isso, poucos grandes treinadores nascem a partir das selecções. Só nos clubes podem ser treinadores com «T» grande no plano do treino. Como detectar então um desses treinadores entre os seleccionadores do Euro-2008? A forma das equipas jogarem após mais tempo de treino é um bom indicio. O estilo, o discurso, explicando estratégias e filosofias, conversando sobre futebol, são outras formas. É onde emerge Slaven Bilic, seleccionador da Croácia. No banco, lê o jogo de forma cirúrgica. Fora dele, fala do jogo com paixão e cativa pelas ideias que dão pistas para debates interessantes de futebol. A sua Croácia entra hoje na relva do Euro. Modric e Kranjcar tratam a bola com classe a meio-campo. Olic e Petric dão-lhe o caminho da baliza perto da área. É a corte de Bilic, treinador com «T» grande para seguir no futuro futebol europeu.