Diário do Euro 20

25 de Junho de 2008

O sexto sentido

Já disse várias vezes que, na minha opinião, as melhores equipas são, antes das que evidenciam as suas qualidades, sobretudo aquelas que sabem defender-se dos seus defeitos. É, no fundo, outra forma de manifestar talento, uma espécie de sexto sentido técnico e táctico que a faz travar quando chega à berma do precipício. Se tentar aplicar est teorias ás selecções deste Euro-2008, então tenho de considerar que a melhor equipa do torneio, até às meias-finais, é a Espanha. O seu jogo, com a bola circulando, tornou-se mais sério em relação ao passado. Isto é, não se deixa levar pela fúria ou pelo canto de sereia do adversário que, como fizeram os italianos, quase lhe sussurram ao ouvido quanto é bonita, para subir no terreno, e, depois, a apanhar em contra-ataque. Ver a forma como Xavi, Silva, Iniesta e até os laterais Sérgio Ramos e Capdevila aguentaram as suas posições mesmo face às linhas recuadas da Itália, foi a grande prova da evolução táctica do modelo de jogo espanhol. Não sei se será esta uma tendência para marcar um novo ciclo na sua história. Porque muitas vezes é, até, contra-natura com o seu carácter destemidamente tauromáquico de jogar futebol.

O jogo com a Rússia do belo futebol, no oposto da cínica filosofia italiana, será outro grande teste a essa maior maturidade táctica. Não se trata de aqui de preferir ceder a iniciativa. Trata-se de resistir para não morder a maça e ser expulsa do paraíso.

Em tese, parece mais fácil roubar a bola ao adversário do que depois em posse criar-lhe um problema com ela. As melhores equipas são as que conseguem as duas coisas com a mesma naturalidade, manejando os diferentes ritmos. Com nomes próprios: Senna e Iniesta. Corte e passe. O jogo russo tem outras essências. Passe e desmarcação. Zyryanov e Arshavin. Duas equipas que nunca tiram os olhos da bola. Em posse ou não. A partir de modelos diferentes, jogar bem é isso.

A montanha turca

Os jogos e as equipas estão cada vez mais cheios de adaptações, com ditos jogadores polivalentes a fazerem vários lugares ou outros desviados para outras posições que não as suas de origem. Fatih Terim teve de inventar uma equipa para jogar contra a Alemanha, mas conseguiu, na maioria dos lugares, que os grandes princípios de jogo do onze fossem respeitados. Um local onde o que conseguiu muito bem foi nas faixas. Kazim Kazim, na direita, tem uma boa noção de verticalidade do jogo, invadindo bem o espaço em posse, mas a melhor entrada foi, na esquerda, de Ugur Boral, que já no Fenerbahce tinha feito uma bela época nessa posição. A sua capacidade de, como médio ala esquerdo, flanquear ou verticalizar jogo e marcando bolas paradas.

A linha defensiva turca não melhorou muito desde o inicio do Euro, mas o facto dominar melhor o momento defensivo a meio-campo (com Topal ou Aurélio a pressionar e a passagem de Altintop no centro) permitiu passar o seu bloco de baixo para médio-baixo. Perdeu na noite em que melhor jogou.