Diário do Euro 22

27 de Junho de 2008

As virtudes dos duelos

Perseguir a bola ou conduzir a bola. Duas formas de preconceber o jogo. Duas formas, depois, de melhor estar em campo. Os dois momentos são necessários mas é, no segundo, naturalmente, que se pode fazer a diferença na criação e ganhar. Muitas equipas têm preparado os jogos decisivos deste Euro, pensando nos duelos que se travam nos flancos. Se o adversário tem um lateral ofensivo ou um extremo, como fechar, meter então mais um médio, ou pedir ao nosso ala para baixar na marcação e o lateral ficar mais posicional. Penso nisso vendo o Espanha-Russia quando Sérgio Ramos, lateral direito espanhol cria quase um duelo particular com Zhirkov, lateral-esquerdo russo. Nas características, ambos são muito ofensivos, mas, neste Euro, Zhirkov tem assumido mais esse papel (no clube, CSKA, joga mesmo solto numa defesa a «3») do que Ramos, mais comedido a subir do que faz no clube.

Era uma batalha chave porque a Rússia tinha nessa arma uma zona preferencial de transição ofensiva. Aragonês viu isso e no dia em que tinha o desafio directo mais perigoso, foi quando Sérgio Ramos teve mais liberdade para subir a atacar, movendo-se o ala (Iniesta ou Silva) para dentro nessa fase, abrindo o corredor. Passa assim da primeira para a segunda zona de construção. Com isso, matou essa zona de transição russa, inventou uma para si e esfumou o perigo Zhirkov do jogo. Ou seja, em vez de perseguir a bola (e o adversário) a estratégia particular de Sérgio Ramos era antes de conduzir a bola, invadindo espaços e encarando o adversário (que, ao invés, passou ele a perseguir a bola).

Os grandes jogos decidem-se nestes factores. Chamam-lhe pormenores. São mais do que isso. São nuances estratégicas. Os melhores treinadores são as que melhor as sabem dominar. Por isso, Low e Aragonês estão, com total justiça, na final do Euro.

Parem tudo! Entrou Fabregas!

Diário do Euro 22A beleza é sempre agradável e nunca falha para causar uma boa impressão. Vejo Fabregas entrar em campo devido à lesão de Villa e ajeito-me logo melhor no sofá. Mas para onde vai ele jogar? Será que vai mudar o sistema e encostá-lo a uma faixa, temos em silêncio. Não, Fabregas joga solto entre linhas na segunda fase de construção atrás do ponta-de.-lança Torres. Finalmente, a visão ao mesmo tempo mais romântica e eficaz do jogo vai ser colocada à prova neste Europeu.

A eficácia dessa beleza está provada nas imagens que o resto do jogo deixou para a eternidade. Fabregas joga como respira e a cada passe faz o jogo respirar nos locais onde a atmosfera está mais densa. O seu passe para o segundo golo espanhol, fazendo a bola com um toque subtil levitar sobre toda a defesa russa tem um poder hipnótico que resolve o jogo. Marca outro tempo no jogo. Há locais futebolísticos mágicos a que só jogadores com poderes ocultos conseguem aceder. Como faz Fabregas. Produtor de ciência e emoção na relva.