Diário do Euro 23

29 de Junho de 2008

Estar nos sítios certos

Jogar uma final é assim tão diferente de outro jogo qualquer? No plano estratégico, penso que não. Nessa altura as equipas já se conhecem muito bem. Há, no entanto, o factor mental a trabalhar. São jogos destes que fazem uma carreira. É o futebol de pressão. Diz a história que ninguém lida melhor com isso do que os alemães. São blocos de gelo emocionais. As almas latinas, como a espanhola, tornam-se mais emocionais. São guerreiros temperamentais.

Mas era ilusório pensar que esta Final se decidiria na força mental. Nem podia. Porque o que manda no futebol é o saber manter uma relação inteligente com a bola. Dirão que, para isso, é necessário aguentar a pressão. Sem dúvida, até o lado mental tem transfer táctico para o jogo. Aliás, tudo o que se passa no jogo é táctico. Mesmo o gesto técnico mais fantástico necessita para ser eficaz de ser executado no sitio certo. Ora, para estar nesse sitio certo é obrigatório saber táctico para o ocupar no momento exacto.

Os jogadores espanhóis e alemães sabem estar nos sítios certos. Uma das formas de impedir que estivessem nesses sítios certos era tirando-lhes esses espaços. Como? Encurtando o campo. Para defender melhor e impedir a circulação e mobilidade do sistema espanhol expresso no toque e das trocas posicionais. A Alemanha marcou em antecipação, pressiona no centro mas quando, para atacar, teve de aumentar o campo, nos sítios mais cerebrais do jogo que são as colunas do meio-campo, a Espanha agarrou o jogo através de um quinteto táctica e tecnicamente fantástico: Senna-Xavi-Fabregas-Iniesta-Silva.

São assim os grandes jogos do futebol moderno. Cada vez mais longe do romantismo do 4x3x3. Cada vez mais hipotecado ao meio-campo. Nada disto é emocional. Tudo isto é táctico. Mesmo o perfume de Iniesta e Xavi. A sublimação do passe.

A ditadura dos médios

Diário do Euro 23Até onde a lesão de Villa e a entrada de Fabregas mudou o jogo da Espanha? Uma questão que Low nunca conseguiu ultrapassar e que deu nova dinâmica ao ataque espanhol. É estranho, mas a verdade é que o maior goleador saiu e a equipa até atacou melhor. A construção foi, no entanto, diferente. Desde logo porque, sem Villa, perdeu profundidade, isto é, capacidade de esticar o campo mal, lá atrás, à entrada da área, Senna faça um passe curto para Xavi e iniciava-se a transição defesa-ataque. Fabregas dá mais referências de circulação. O jogo, porém, daria a solução.

Porque a Alemanha apostou em outros cinco médios (com Podolski incrustado à esquerda na transição defensiva) para tentar transformar o espaço central do relvado, de uma meia-lua à outra, numa espécie de labirinto do qual cada equipa terá de descobrir a melhor saída em direcção a cada baliza. Foi a Espanha. Soube esconder a bola em campo pequeno. Trocando-a em 30 metros. Soube dar-lhe vida em profundidade, com Torres e passes longos de ruptura, quando os alemães saíram da toca e o campo aumentou.