Diário do Euro 3

08 de Junho de 2008

A arte da táctica individual

É das expressões que melhor define o bom futebol: Leitura de jogo. Em termos individuais e colectivos. A cultura táctica tem muito a ver com isto, mas revela-se sobretudo quando um jogador vê a bola vir no seu caminho e recebe-a já de forma a colocar-se em posição para dar sequência ao lance. Ou seja, a recepção não pode ser o fim do passe, mas antes o principio de outro passe (ou movimento) decisivo para dar a dinâmica certa ao jogo. É a chamada recepção orientada. A táctica individual.

Uma noção que, neste Europeu, tem um exemplo perfeito. O gesto táctico-técnico de Moutinho a receber, girar, controlar e passar a bola na assistência mortal para o segundo golo de Portugal à Turquia. A melhor técnica é, portanto, a que concilia na sua expressão a noção táctica. Se no plano individual é assim, no plano colectivo, por maioria de razão, também é. Até a táctica ser…a técnica.

É o melhor elogio que se pode fazer ao jogo português na sua estreia no Euro. Apesar da dificuldade, em alguns momentos, para fazer a bola passar com velocidade de um flanco para o outro, sente-se que a equipa respira…técnica. E não há melhor traço de qualidade, colectiva e individual, do que esse. Arranque de Ronaldo, diagonal longa, passe interior, recepção orientada de Moutinho, passe mortal, golo de Meireles. Parece simples. E foi. Porque teve táctica, técnica e velocidade.

A Croácia também tem jogadores com essa noção de futebol, mas nem Modric, nem Kranjcar, souberam meter outra velocidade no jogo. Deixaram-no ir para o lado dramático de segurar a vantagem curta tangencial desde os 4 minutos e acabaram com a língua de fora. No fundo, perderam a capacidade ter leitura de jogo. Porque ninguém consegue uma boa leitura a partir do sofrimento. Talvez só os italianos. Mas isso já é outra história. É uma questão de cultura que vem desde o berço. Para falar depois de ver a estreia de Gattuso, Panucci, Pirlo, Toni e companhia.

A sombra de Drácula

Diário do Euro 3Aprisionada entre três gigantes, o onze das terras de Drácula parece nem existir para a elite europeia. Acredito que há quem não pense assim. Se um deles for um canhoto que trata a bola como um encantador de serpentes frente ao seu cesto, então a Roménia de casta latina pode furar este protocolo de favoritos. É Adrian Mutu. Provocador e caprichoso, traiu o seu talento nos anos em que devia ter-se confirmado como estrela-maior dos relvados. Terá perguntado então “quanto tempo o tempo tem”. Voltou. Sempre que pega na bola, colada ao pé, cabeça levantada, ameaça com criatividade e apunhala o jogo pelas costas no um para um.

Marica é um bom companheiro para o entender. O França-Roménia pode ser um jogo para ver olhando para perto das áreas. Seguindo Mutu, ou buscando o novo ícone do ataque gaulês. Karim Benzema. Potência com imaginação no mais recente produto da Gália multicultural. Parece transformar espaços pequenos em latifúndios. E remata como respira. Mutu é outro estilo. Abre espaços. E dribla em progressão como respira. É sempre bom ver jogos seguindo os melhores jogadores. Experimentem isso neste França-Roménia.