Diário do Euro 4

09 de Junho de 2008

Mentir para jogar bem

Os extremos à moda antiga desapareceram dos relvados. Dirão que é uma ideia sem sentido escrita num país que tem Ronaldo, Quaresma e Simão. Não é bem assim. Porque nenhum deles é já um extremo puro. Jogam nos flancos, apenas. Com a bola, em vez de, num movimento vertical, procurar a linha para centrar, procuram a área para rematar, num movimento diagonal. É sobretudo por isso que embora sendo todos destros, todos preferem jogar desde a esquerda. Porque só desde ai, à medida que fazem a diagonal, puxam a bola para o seu pé. É o gesto que mais desequilibra no futebol actual.

E é natural que assim seja, pois foge à zona de pressão que em geral se concentra nos corredores centrais e permite ao jogo respirar desde os flancos. No mundo das faixas, talvez Ribery, na França, seja dos últimos a deixar um perfume de extremo puro pela forma como vai para cima do lateral no drible em progressão e centra depois.

Mas também há canhotos que criam desequilíbrios desde a esquerda sem serem alas ou comportarem-se como tal. Podolski é o melhor exemplo deste Europeu. Avançado-centro de origem foi, no 4x4x2 alemão, encostado à esquerda, longe da área onde estavam Klose e Gomez mas mal o jogo começou percebeu-se que aquele seria apenas um ponto de partida no papel.

Em vez de diagonais, Podolski mexe-se, no entanto, de forma mais mentirosa. Faz um movimento interior entre-linhas e esconde-se atrás dos pontas-de-lança. Depois, espera a linha de penteração e surge, verticalmente, na área. Todos os movimentos e espaços que com eles consequentemente ocupa, procuram sempre o seu pé esquerdo. Um pouco como fez, noutro estilo, Sjneider, na Holanda. Coloca-se na esquerda e, também destro, cai depois no centro, entre-linhas, para passar ou rematar. Um organizador/desequilibrador camuflado que desintegrou a defesa italiana.

Roménia, o saber defensivo

Diário do Euro 4É comum elogiar equipas pela forma como atacam. Mais difícil é apreciar a sabedoria defensiva. É injusto. Porque saber defender bem, domando espaços e bola, também é uma arte. Foi o que senti ao ver jogar a Roménia contra a França. Uma aula de organização e transição defensiva. Os extremos Mutu e Nicolita pouco apareceram, mas os pilares da equipa nos momentos sem bola foram perfeitos. Manteve um trio posicional à frente da defesa (Chivu-Cocis-Radoi) que beneficiou dos franceses não colocarem ninguém no centro da segunda linha do seu meio-campo e, na linha de «4» defensiva, os centrais Tamas-Goian não falharam um timing de entrada no corte sobre Anelka, Benzema ou Gomis.

A fechar a faixa canhota, Rat, um defesa-esquerdo de grande nível. Nos outros dois momentos, transição e organização ofensiva, o onze receou esticar-se. Falhou o contra-ataque. Foi dando largura ao jogo, mas nunca teve profundidade. Ficou a marca do saber defensivo, ao estilo latino como só existisse uma baliza em campo, onde estava Lobont, fechada a sete chaves (leia-se sete jogadores).