Diário do Euro 5

10 de Junho de 2008

Os «baixinhos» gigantes

O lado físico do jogo confunde o futebol actual. Cria-lhe estereótipos de jogadores e esquece que antes de carne e osso eles têm alma. Isto é, têm talento. Algo que vive para lá do músculo. Só nas posições do quarteto defensivo a composição física (a altura, particularmente) é decisiva para poder cumprir todas as missões que esses lugares (centrais e laterais) exigem. No meio-campo, o jogo já tem outra essência. O que importa, nesses espaços, ter 1,80m. quando o bom futebol deve ser jogado rente à relva? Nesses momentos, todos tem a mesma altura. E os mais baixinhos podem ser gigantes. É famosa a história onde o pequeno David derruba o gigante Golias.

A verdade é que essa história só é famosa porque terá sido a única vez que um baixinho venceu um gigante. Nas outras, todos os dias, ganha o gigante. Mas ninguém acha que vale a pena contar essa história. É banal. Excepto no futebol. Nessas páginas, a selecção espanhola é a protagonista desta história. Iniesta (1,70m.) e Xavi (1,74m.) a mexer a meio-campo. Tocam a bola, passam, recebem e vão embora com ela. Na esquerda, Silva (1,70m.) acelera. Na frente, Villa (1,75m.) vira os gigantes do avesso. Desta vez tinham nomes russos. Chirokov e Kolodine (1,87 m. cada um). E o bom futebol aparece. Com golos.

São baixinhos-gigantes olhos nos olhos com qualquer adversário. Não são, no entanto, jogadores frágeis. São baixinhos mas se chegarmos perto deles ouvimos o terno roncar de um motor alta cilindrada escondido no seu corpo. Resistência inteligente para arrancar atacar a bola. É no meio-campo que esta imagem melhor abraça o fútbol espanhol, ao ponto de criar a miragem de até Cesc também ser um baixinho. Mas não é. Já tem 1,80m. Só que também joga como se fosse um baixinho. Isto é, muito bem. É uma nova geração a tocar a bola, sem fúria, com classe.

A girafa «amarela»

Diário do Euro 5É das melhores sensações que se pode ter quando se vê um jogo amarrado tacticamente. Encontrar um jogador de outra dimensão. Na inteligência e na relação com a bola. Penso nisso ao ver o Suécia-Grécia. E de repente o jogo estremece. Quem joga contra ele, jura ouvir quando passa por perto um estranho tic-tac, tic-tac. É o relógio que controla o timing de detonação da bomba-relógio que se esconde dentro de um perna-longa sueco com 1.92 m. Zlatan Ibrahimovic. 70 minutos passeando sobre a relva.

Até surgir o espaço, a bola a olhar para ele, pulando ansiosa e o remate. Bang! Ao ângulo. Perfume de Bola de Ouro num golo que fez cair como um castelo de cartas aquilo que segundos antes parecia uma muralha indestrutível erguida por um saco de gregos que defendiam alegremente a sua baliza. Ibrahimovic é uma ironia no granítico futebol sueco. A agilidade de girafa que molda o seu futebol não é comum num jogador que vive tão longe da relva. Foge dos locais mais povoados e se ele não vai ter com a bola, vai a bola ter com ele. Simples.