Diário do Euro 6

11 de Junho de 2008

O «GPS» do bom futebol

Um jogo de futebol é como um labirinto do qual só os bons jogadores encontram a saída. O grande objectivo, para soltar o nosso jogo, é conseguir retirar a bola da zona de pressão (onde os adversários mais encurtam espaços e marcam em cima) e colocá-la, ora na zona de transição (no inicio de construção) ora nos espaços vazios (na segunda linha, na fase de definição). Enquanto a primeira depende da visão colectiva de saber pressionar para jogar (em vez de jogar para pressionar) a segunda depende, no inicio, da capacidade de sair a jogar pelos flancos (após com um passe lateral tirar a bola da zona de pressão) e, depois, perto da área adversária, da capacidade de passe e jogar nas entre-linhas dos adversários.

Os momentos por que passou o jogo português frente ao onze checo são uma boa forma de entender estes labirintos do jogo do qual só é possível sair com inteligência. É então que surgem os jogadores que marcam a diferença pela leitura de jogo. Na viagem lusa pela relva suíça, há quem tenha esse mapa das estradas tácticas sempre aberto e indique o caminho: Deco.

O «GPS» do plano de jogo português. Recebe a bola na zona de pressão e, de repente, com um passe, abre uma clareira de relva no jogo. Recebe a bola entre-linhas, perto da área checa, e, com outro passe de morte, coloca a bola no ponto «G» para o remate dar golo.

O futebol volta, então, aos seus códigos mais primários. Recepção, passe, remate. O poder hipnótico da bola no controlo do tempo e dos espaços. Num futebol cada vez mais fechado, a capacidade de furar por esses buracos da fechadura é decisivo. Como faz Deco. Um jogo inteiro como um ladrão sozinho na noite tentando descobrir o segredo do cofre-forte de um banco (entenda-se a linha de passe para furar a muralha defensiva adversária). Tenta uma combinação, não dá, tenta outra, ups, mais uma vez, e, de repente, clic! Já está. Eis o segredo para o bom futebol!

Bolas paradas: zona ou homem?

A marcação de uma bola parada (canto ou livre com centro para a área) é como um quinto momento no jogo. Pensando em quem defende, a dúvida é saber qual deve ser a referência no posicionamento de marcação: o homem ou o espaço? A opção pela marcação individual implica, desde logo, a dimensão física do jogo (ganhar no duelo a bola dividida) e afasta o principio da inteligência do jogo de ganhar o espaço em antecipação. Antecipar primeiro o pensamento e, depois, antecipar o movimento. E fazer o corte.

É um sistema aparentemente mais arriscado apenas porque exige jogadores mais inteligentes. Portugal marca individualmente nas bolas paradas. Foi assim que sofreu mais perigo dos checos, inclusive o golo. Em vez de antecipar o espaço ao primeiro poste, ocupando a zona desde que o checo ia cobrar o canto, Petit foi com Sionko desde o segundo poste, mordeu-o, mas o checo chegou primeiro no espaço e marcou.

É uma opção, mas se por todo o campo Portugal prova que o melhor futebol, o mais inteligente, não é uma questão de centímetros e encostar no adversário, não faz sentido que o faça dentro da sua área.