Diário do Euro 9

15 de Junho de 2008

Ouçam como respiram, vejam como jogam

Em campo, uma equipa é como um ser vivo que passa por várias fases. Trata-se, sobretudo, de saber como reagir a cada situação, porque no decorrer dos 90 minutos, o jogo e as equipas, vão passando por vários momentos. Mas nem todos os jogadores passam por eles.

Pensem nas transições, momento em que uma equipa passa de organização defensiva para a ofensiva, ou vice-versa. Há jogadores destacados para as activar. A Espanha é um bom exemplo. Recupera a posse e quer sair a jogar desde trás. A bola entra no trinco, Senna, e pára. O brasileiro apenas vive para a organização defensiva, garantindo equilíbrios posicionais à frente da área. Não faz, por principio, a transição. É então que recua Xavi e pede-lhe a bola. Recebe-a e a equipa entra noutro momento do jogo. A transição defesa-ataque.

É interessante então, à medida que Xavi avança, ver como se movem os homens mais adiantados. Primeiro Iniesta, quase dança em largura à sua frente. Vai para o meio, vê Xavi aproximar-se e abre na direita. Silva fica na esquerda. É então altura de Xavi fazer o passe. Mete na esquerda. Recebe Silva. A equipa entra noutro momento. Organização ofensiva. Movem-se então os dois avançados. Torres e Silva. A tendência é em função do lado em que cai a bola, um deles abre e faz uma diagonal de dentro para fora. O outro, então, arranca para o centro. A profundidade na faixa direita está garantida pelo descair de Iniesta e pela subida do lateral Ramos.

Perdida a posse, um dos avançados cai no adversário que quer sair a jogar (momento de transição defensiva). Iniesta flecte, Silva recua até à linha do meio-campo e Xavi entra no pressing alto que, embora activado por um jogador, tem uma noção colectiva de movimentos. A equipa está no momento de organização defensiva. Atrás, Senna é a âncora.

Jogador chave em todos estes momentos: Xavi. Como também pode ser Fabregas quando entra para o seu lugar. Todos estão presente no mesmo relvado, mas cada um joga, a cada momento, o seu jogo particular.

Segredos russos

Diário do Euro 9É dos pontas-de-lança que mais gosto deste Euro: Pavlyuchenko, da Rússia. Dá, com as suas movimentações, linhas de passe aos médios que entram de trás. Com a bola, busca sempre espaço para o remate. O onze de Hiddink, em 4x1x4x1, tem o estilo russo na forma como tenta chegar à área em quatro-cinco toques, mas denota também aromas holandeses na intenção de o fazer em circulação, isto é, o lance começa num flanco e acaba no outro. Semak é um pivot-defensivo que deixa de ser quando tem a bola. Nessa altura, passa a pensar ofensivamente a transição e tem sempre a quem passar a bola em progressão.

Embora menos culta tacticamente a defender, com os laterais a defender mal por dentro (necessitando do recuo dos médios interiores) tem princípios de jogo muito atraentes. Com Arshavin ganhará outra imaginação, sobretudo se ele jogar sobre uma faixa, fazendo depois diagonais de penetração. Na área, sempre Pavlyuchenko, muito culto a mover-se em função do local de entrada da bola que, muitas vezes, é ele próprio que o define. Não é comum encontrar um ponta-de-lança com tanta influência nessa ultima linha de passe. Costuma ser o contrário. Ou seja, o médio a dizer-lhe onde quer meter a bola. Com Pav é diferente.