Do cérebro de Ramsey aos ossos de Williams

04 de Julho de 2016

É inevitável pensar na meia-final entre Portugal e País de Gales sem olhar para esta imagem de Ramsey com as mãos na cabeça: o que pode ser a selecção britânica após o cartão amarelo que levou à suspensão do seu camisa 10?

Por Sandro Veloso

O sistema galês (ora em 5x3x2, ora em 3x5x2, conforme o posicionamento base dos alas Gunter e Taylor) solicita permanentemente, pelos seus princípios de jogo, Ramsey como o cérebro da equação perfeita para pensar e ganhar, mas sobretudo para ganhar pensando e jogando bom futebol. É ele quem, à imagem do cérebro, tem a competência de controlar e coordenar todos os movimentos do “corpo” (entenda-se, da estrutura táctica da equipa). Seja através da posse ou do passe, o jogador do Arsenal tem sido o clímax do que sentimos ao ver jogar esta selecção, uma selecção que equilibra como poucas neste Euro 2016 os momentos de organização e transição, tanto a atacar como a defender. Chris Coleman não encontrará em nenhum suplente o factor “génio de Ramsey” (respiram de alívio os portugueses) para jogar à frente da dupla Allen-Ledley, mas deverá querer manter os mecanismos que o trouxeram até esta fase.

A solução Andy King

O médio do Leicester City é o substituto natural para manter a estrutura alicerçada nesses pilares. Dá o mesmo raio de acção do “gunner”, tem remate fácil e é um garante de compromisso para com a equipa, mesmo que não seja um jogador muito dotado tecnicamente. A camisola 8 que veste na selecção assenta-lhe melhor em relação às suas funções do que o 10 que veste ao serviço do campeão inglês.

 A hipótese David Edwards

Caso pretenda introduzir alguns príncipios diferentes na tentativa de contrariar o favoritismo português, o treinador de Gales terá em Edwards o rosto para alterar o seu plano de jogo. Ganha essencialmente competitividade nos duelos, sentido e rigor posicional no momento de organização defensiva e um novo líder dentro de campo.

 As incertezas e as certezas defensivas

Ben Davies também irá falhar o jogo com Portugal por suspensão. O lateral do Tottenham, que na selecção joga como central na defesa a cinco, deverá ser substituido por Jazz Richards obrigando ainda a que Gunter passe do corredor lateral para o eixo da defesa. Esta foi, aliás, a linha defensiva mais vezes utilizada pelo País de Gales na fase de qualificação: Richards, Gunter, Williams, Chester e Taylor. Há, no entanto, a possibilidade remota do seleccionador galês não querer desviar Gunter e lançar directo para a titularidade Collins. O jogador de 32 anos do West Ham somou apenas uma internacionalização entre qualificador e fase final do Euro 2016.

Ashley Williams actuou nos últimos 15 minutos frente à Irlanda (nos oitavos de final) com o braço esquerdo imobilizado após um aparatoso choque com o seu colega de equipa, Jonathan Williams. O exemplo de entrega do capitão do País de Gales (que se recusou a sair de campo) é a amostra perfeita da selecção que podemos esperar: uma selecção que embora tenha perdido o seu cérebro, promete defrontar Portugal com todo o seu coração que lhe proporcione um equilíbrio de forças. Cabe-nos, com o nosso, não deixar que isso aconteça.