“Dr. Jamor”, a Taça que dribla o tempo

15 de Maio de 2008

“Dr. Jamor”, a Taça que dribla o tempo

Nas matas, a bifana e a sardinha assada. No relvado, a táctica e a técnica apurada. Mundos distantes que se tocam num palco que resiste ao tempo e sofreu das vezes que lhe roubaram o “seu jogo”. O Jamor ultrapassa épocas no futebol português, viu heróicas contestações estudantis à ditadura, admirou a corrida curvada para a frente de Eusébio até ao potente remate que fulminou Damas, viu os golos de Arsénio e Matateu, a dupla Hernâni-Jaburu no primeiro Porto a erguer a Taça, o drible-macuma de Jota-Jota ou o sonho do rebelde Leixões da II B, desafiando o super-Leão de Jardel. No início foi Peyroteo, autor de dois golos do Sporting ao Atlético na primeira final da história jogada no Jamor em 1946, depois da remota era das Salésias. Futebol de diferentes “cores”, desde o tempo do preto-e-branco

FC Porto e Sporting regressam este domingo ao mesmo palco. Na memória do passado, outros duelos, com diferentes contornos mas igual força emocional. Há 30 anos, data da primeira final Porto-Sporting viviam-se, porém, outros tempos. O comboio azul-e-branco ainda procurava superar o medo de “passar a ponte”, o momento em que, como dizia Pedroto, o FC Porto começava a perder quando se deslocava a Lisboa. Chegava-se à outra margem e já “perdia” por 3-0. Mas as coisas mudaram. A Final de 2008 é diferente de 78 mas há elos que acontecimentos recentes despertaram. O assalto ao poder do futebol português (dentro e fora do relvado) começara a sentir novas tendências exactamente nessa altura. O FC Porto continua a mover-se na arte do conflito como o seu território. Mas os tempos são outros.

Esta equipa do FC Porto, embora tenha o ADN histórico dessas três décadas, já é mais aburguesada. Sabem onde penso que isso se nota mais? Na forma como joga nos minutos seguintes a ter marcado um golo. Em vez de redobrar o perfil guerreiro, ganha então mais o discreto charme da burguesia portuense. Será das “trivelas” do Quaresma ou do olhar de desprezo pelo jogo de Bosingwa, mas sente-se que este Porto necessita de outros estímulos competitivos. Jogar com o Sporting pode ser uma boa forma de resgatar esse perfil. O lado táctico do jogo também carrega ainda mais o sobrolho de Jesualdo. Em duas épocas, foi com o losango de Paulo Bento que o seu 4x3x3 azul sentiu sempre mais dificuldades.

Jogando com os espaços, Bento transformava o meio-campo numa teia-de-aranha que se estende a toda a largura do terreno. Com isso, forçava o FC Porto a jogar quase sempre no chamado “lado escuro” do jogo. Isto é, em função do adversário em vez das suas próprias qualidades. Nenhuma equipa conseguiu fazer tanto isso ao FC Porto como o Sporting nas duas ultimas épocas. E isso foi decisivo para os resultados finais.

Não será muito diferente o jogo da Final desses outros confrontos Jesualdo-Paulo Bento. O Sporting não sabe jogar de outra forma. Para alguns jogadores isso tornou-se um problema. Digo isto ao pensar em Miguel Veloso. Como pivot-defensivo, fica com demasiado terreno livre à sua frente quando recebe a bola. Quer sair a jogar e vê que os outros médios mais próximos já foram embora, abrindo nos flancos. Para quem é lento, esse espaço livre dá então a sensação de ele ter um jogo “travado”. Resolve a situação quase sempre com um passe longo, mas isso não combina com a tese da teia-de-aranha, a estratégia onde o Sporting perturba mais o pensamento táctico de Jesualdo.

O Jamor ficou célebre mais pelas emoções que desperta do que pelos debates tácticos, mas é este segundo ponto que manda e faz explodir o primeiro. Como o futebol aburguesado perde-se a compostura e, em 90 minutos, fosse decido apenas pelo lado emocional. Pura ilusão. Jesualdo e Bento gostam de relvados “quadriculados”. Ganha quem mexer melhor as peças.