Dupla-substituição: atacar mais ou jogar melhor?

13 de Outubro de 2014

Quando um treinador vai ao banco buscar um jogador para o lançar no jogo pode ter várias intenções: defender melhor, atacar mais, ocupar determinado espaço, mudar forma de jogar, tudo varia conforme o jogo e suas circunstâncias. Lopetegui e Marco Silva fizeram isso nos últimos jogos de campeonato, com duplas substituições simultâneas, ambas mexendo nos mesmos locais da equipa e do jogo. O espaço e posição do médio mais defensivo, o pivot, e o do médio mais ofensivo, que até se pode tornar em segundo avançado. Com nomes próprios: Ruben Neves-Quintero, no Porto, Adrian-Montero, no Sporting.

Em ambos, a conexão colombiana mudou o jogo, Quintero pela criatividade com passe e visão de jogo (e remate para o golo). Montero pela inteligência de movimentos e visão a fazer dupla com outro avançado (e, também, remate para o golo).

A mudança do pivot teve, no entanto, derivações de pensamento táctico-técnico diferentes em cada treinador. Se Marco Silva procurava sobretudo quem lançasse melhor a bola em busca de profundidade (verticalizando mais desde trás no corredor central) e meteu Adrian, já Lopetegui procurava quem iniciasse a saída de bola de forma diferente, com circulação ampla, como faz Ruben Neves, e não passe curto de segurança como fazia Marcano. Com isso, no fundo, trocou um trinco por um pivot.

Nesta perspetiva, a mudança de Lopetegui corresponde a uma mudança conceptual no jogar (para melhor no sentido de início de construção ) do FC Porto. A de Marco Silva, pelo que impacto que marcou a diferença foi mais à frente, corresponde à criação de uma variante tática, próxima do 4x4x2, com dupla de avançados.

Em comum, o ganhar do corredor central para ganhar, depois, o poder desequilibrar nas faixas, pois com mais preocupações de marcação no centro é natural as equipas adversárias serem obrigadas a dançar nas marcações, isto é, abrir mais espaços entre o alinhamento dos sectores (centrais-laterais, médios-centro e alas que recuam) porque a atração de marcação no centro, onde surge agora um elemento mais perigoso (as entradas de Montero e Quintero) é naturalmente maior.

A relação é sempre essa: para ter espaço nas faixas há que primeiro ganhar a luta da pressão no corredor central. Ora através da criatividade pura, ora através da inteligência (maior ou diferente) de movimentos para mudar as coordenadas de marcação que estavam encaixadas pelo adversário até esse momento. E assim, ambos os golos que desbloquearam o resultado nasceram de arranques nas faixas com mais espaço (quer para o ala, Brahimi, quer para o lateral que sobe, Jefferson).

Dupla substituição atacar mais ou jogar melhorConceptualmente, a questão do meio-campo do FC Porto de Lopetegui continua em aberto e tal condiciona a evolução do modelo de jogo que ele quer construir. No Sporting, Marco Silva faz variações que visam mexer com o sistema, não com o modelo. A questão mais sensível nesse aspecto será João Mário, porque implica um jogo mais de posse, enquanto André Martins é um jogador mais de ruturas que fica quase sempre preso no limbo entre ser médio-ofensivo ou segundo-avançado. E ninguém consegue ser feliz, no futebol e na vida, em cima de um limbo. Acaba sempre por cair. Como André Martins caiu da equipa.

No jogo há também momentos que a autoridade não se explica pelo onze no papel. Tem de se aplicar em campo. Quando os treinadores vêm o jogo amarrado estas são as chamadas hora de decisões. Ler o jogo desde o banco passa essencialmente por ler primeiro a sua... própria equipa. E perceber o que é melhor para ela. São esses hoje os grandes desafios para Marco Silva e Lopetegui.