E o nosso estilo onde ficará?

06 de Setembro de 2016

 É o que penso quando vejo a seleção: que estilo irá Fernando Santos querer agora meter no nosso jogo

Existem coisas que parecem só fazer sentido vistas a partir da emoção. Nessas alturas, a tentação é deixá-las nesse território emocional e não pensar muito mais nisso. No futebol, a seleção nacional é um desses casos. Não é por acaso que quando no inicio qualquer seleção (e o adepto na bancada) ouve o hino, sente mais que se está a preparar para invadir outro pais do que apenas para jogar um mero jogo de futebol.

O triunfo no Europeu fez-nos saltar e abraçar toda a gente ao nosso lado e é bom que esse sentimento se mantenha nas bancadas que agora até vibram quando o Éder falha um golo na pequena área ou domina mal a bola quando antes, só um desses casos fazia explodir de raiva qualquer adepto. É o clássico final da história dos “patinhos feios”.

Existe, no entanto, outro espaço para ver a seleção e é nesse que, não duvido, se coloca Fernando Santos. É evidente que todos queremos ganhar e no fim dos 90 minutos esse lado “resultadista” será sempre um argumento demolidor. Mas, antes do jogo, não é.

Por isso, admiramos sempre e tivemos esperança nas nossas seleções nas últimas décadas. Porque jogavam mesmo bem, assumindo a bola, a qualidade técnica e expressavam um estilo que fazia o resto do Mundo nos admirar. Foi por sentir falta disso que, antes dos jogos ou naquela primeira fase em França, não sentimos a mesma esperança. A seleção não jogava (não empatava) com esse seu estilo.

Até que, de repente, Fernando Santos encontrou a "password" certa para a organização do meio-campo e, estrategicamente a cada jogo, ganhamos o Europeu. Saltei, claro. Mas, confesso, senti mais a derrota de 2000 do que a vitória de 2016.

Dirão que é a minha velha e deprimente atracção pela estética da derrota. Não, não é. É a sensação de que podemos pegar no resultado que conseguimos e potenciar um melhor futebol do ponto de vista do nosso estilo (de técnica, posse, circulação e elaboração) esteticamente português-latino (com organização sábia e veneno de contra-ataque também).

É essa questão que hoje me assalta quando penso na seleção: que estilo de jogo irá Fernando Santos querer meter no modelo da nossa seleção? Será o que cada jogo estrategicamente ditar ou o que as nossas qualidade natas ou fabricadas podem nos dar? O ideal será uma mescladas das duas, com a primeira a servir de partida para o fundamental: um estilo de jogo que nos faça vibrar antes do resultado. E que não dependa do resultado. Mesmo que voltemos a perder.

cancelo

No jogo contra um rochedo, Gibraltar, com onze jogadores, a seleção sentiu toda a atmosfera que a rodeava mas não se limitou a passear em campo a rir-se. Salvo as proporções das maiores dificuldades que vamos defrontar na Suíça, pode existir “transfer” do feito neste jogo para algo a tentar na estratégica helvética. O crescimento de forma de Moutinho (que teve o seu futebol em crise no Euro) e a confirmação do tal jogador que tanto queria ver na seleção principal: João Cancelo. Claro que ainda tem bastante por onde crescer, mas não vejo desde há muito melhor lateral-direito (no que já é e no potencial) do que ele no atual futebol português.

Na banda dos criativos, Bernardo Silva será sempre, mesmo que o metam encostado a uma faixa, uma visão de um nº10 “á moda antiga”. Há jogadores assim. Não os podes condicionar à modernidade táctica até os quase deixar de serem o que são. O jogo do Bernardo é feito de enganos... inteligentes. Sabe como fintar o adversário e também, ao mesmo tempo, a táctica da sua...própria equipa, sem com isso por em causa a disciplina. É um promotor da “desorganização organizada” como todas as grandes equipas devem colectivamente ser capazes de ser.

A nova ideia do estilo de jogo de Portugal, com as quinas e as divisas de campeão europeu, pode ser um protótipo dessa impressão digital do jogador português.