É possível voltar a sonhar?

22 de Julho de 2014

Esta pode não ser a melhor forma de iniciar este conjunto de crónicas sobre o Mundial. É, no entanto, a emocionalmente mais honesta para mim. Porque, há alguns anos, sempre que um Mundial se aproxima, tenho a irresistível tentação de olhar para trás. Não por nostalgia. Pelo menos, acho que não. Mais para recordar. Se calhar, é a mesma coisa.

E como só recordo o que senti, e raramente o que “apenas” vi, termino sempre no mesmo sitio.

Há quatro anos, na África do Sul, tinha o refúgio perfeito. Maradona voltara ao Mundial. Não com bola, mas como treinador, sem ninguém acreditar nele, gordo e com barba mais Hemingway do que Che. Perdeu, naturalmente.

Este ano, no Brasil, repete-se o sentimento. Mas sem Maradona. Recordar Mundiais dos velhos tempos que faziam sonhar é recordar um tempo que não existe mais. Tudo aquilo era “descoberta”. A sensação de ver as seleções sul-americanas ou africanas era a mesma de ter aterrado uma nave espacial doutro Planeta.

Cresci assim. Não tenho a pretensão de dizer que lia Nietszche ou ouvia Mozart. Ouvia a Nena e os Imagination. A minha sorte foi ter um vizinho mais velho no segundo andar que abria a janela das traseiras e punha a música alto. Assim descobri Doors, Bauhaus e até a malta do nosso novo rock. Ainda gosto muito da Xana. Essa é a banda sonora, também, do ultimo Mundial que cruzou romantismo antigo com ventos modernos. 1982. O Naranjito, o Conti e o Serginho que desesperava qualquer um.

Hoje, as revoluções são um “livro fechado”. No futebol e, receio, na vida. Enquanto descobri a música descobri o futebol. E, apesar desta babilónia, pensar no Mundial é pensar no futebol brasileiro. O Pelé, as mulheres bonitas cor de chocolate, o samba, o Zico, o Ronaldinho a rir-se com dentes de coelho e o Romário a “passar de bico a bola para a baliza”. É disto que me lembro. Porque é isto que sinto. Por isso este Mundial é especial.

Existe a frase de que nunca se deve voltar aos locais onde se foi feliz. Penso o contrário. Nunca se deve voltar é aos locais onde se foi infeliz. Num caso como noutro, porém, as coisas nunca serão o que foram.

DE GHIGGIA A NEYMAR

É possível voltar a sonharE agora a realidade. Neymar, penteado exótico, madeixas, tatuagens, publicidade e fintas de pôr qualquer defesa de pernas para o ar. Pode ser ele o novo ícone de uma nova era de futebol? A era das “selfies” e dos “posts” ao segundo. Pode ser. Afinal, é um produto dela. Nasceu, porém, também agarrado a uma bola como nos anos 50 o fez a geração de Pelé.

Nessa altura, pelo Mundial de 58, Didi virava-se para ele nos trôpegos autocarros que levavam as equipas e perguntava: “já viste que somos os únicos negros que estamos no Mundial?”. E ganharam como nunca.

O Mundial da “globalização” ultrapassou todo esse tempo. Gostava que este fosse mesmo o Brasil de Neymar. Não o de Scolari nem dos ecos da "dungazização” que ganharam mas traíram a história. A estreia será, assim, quase uma viagem pela memória com um jogo no presente. Haverá quem chame todos os fantasmas. É irónico mas o único sobrevivente da Final de 50 é exatamente Ghiggia, o homem que fez o golo do titulo do Uruguai. E ainda está muito bem. Lúcido. Lembra-se de tudo. Até das bola ao poste.

Gosto de pensar o futebol feito de mitos de “carne e osso”. Gostava que este Mundial me fizesse voltar a sonhar.