É preciso correr tão depressa para jogar bem?

24 de Dezembro de 2014

Cada um dos seus arranques parece abrir uma autoestrada na equipa adversária mas, ao mesmo tempo, nessas jogadas também parece que ninguém da sua equipa o consegue acompanhar. O avançado supersónico é Gervinho.

O ponta-de-lança não existe. Totti é um 9 falso patriarcal que aos 38 anos joga de memória com a classe da execução. Mas, vendo bem, o problema de ninguém o acompanhar nem se coloca muito na prática porque no fim se alguém o conseguir, ele tão pouco passa a bola. Raramente o faz. Quer acabar o que começa.

É a imagem que marca mais a diferença por entre as atuais tendências do campeonato italiano. Na última vitória, em Génova, Rudy Garcia sentindo que ele era quase como um avançado que corre à frente da equipa, colocou-o solto no ataque (4x1x4x1). Depois mudou, mas o pensamento da fórmula-Gervinho estava lá.

O futebol italiano necessita destes novos objetores de consciência táticos para renascer. Há, claro, o problema financeiro que lhes retirou o domínio do mercado dos grandes craques, mas, no futebol jogado, as suas equipas caíram na inteligência de abordagem ao jogo. Vê-se a nível internacional.

Allegri é um treinador que procura jogar dois estilos diferentes na Juventus. O seu, com clássica defesa a “4” (4x3x1x2) e o do seu antecessor, Conte, com o desenho de três centrais e laterais ofensivos que tanto cativa o Calcio (todas as equipas o adotam, preferencialmente ou como alternativa, das grandes às pequenas, embora neste último caso ficando com defesa a “5”).

Nunca o tentara no Milan, um clube, tal como o Inter, em crise existencial que depende mais do que os jogadores podem dar, do que os seus treinadores. O oposto do que sempre sentimos no Calcio. O jogo agora é dos caprichos de Menéz ou da inspiração de Kovacic.

A dupla de ataque da Juve (Tévez-Morata ou Llorente-Giovinco) procura resgatar a velha pequena sociedade do avançado forte, bem nas alturas, com o esquivo que aproveita espaços. A força é, porém, dada pelo meio-campo onde coexiste a pausa e o passe de Pirlo, com o jogo de área a área de Pogba. Nisso, o Calcio, não muda. Na maior importância dada à dimensão física no meio-campo em relação à criatividade dos médios ofensivos. O trequartista desapareceu. E, assim, a Roma só agarra os jogos quando emerge um grande médio agora mais adiantado: o belga Nainggolan. Poucos jogadores ocupam hoje o meio-campo como ele na união tática-físico-técnica (a ordem não é arbitrária).

Esta semana, visitando Madrid, Sacchi elogiava o seu discípulo Ancelotti pela serenidade que dá a tudo que rodeia o clube, fora e dentro das suas paredes, e, taticamente, como ataca em 4x3x3 e defende em 4x4x2, conciliando uma equipa de médios ofensivos (Modric-James-Kroos-Isco).

É preciso correr tão depressa para jogar bemQuando vencia com o seu Milan, procurava o mesmo, mas, com o tempo surgiram outras condicionantes táticas como o estilo-raça de Gattuso.

Aos poucos, o Calcio libertou-se desse tipo de jogador. Basta ver o meio-campo das suas equipas e como a sensibilidade para a posse (com agressividade) aumentou.

Na frente, todos querem o tal poder assustador. Fugindo aos clássicos grandes, vejam Okaka, Matri e Higuain, na Sampdoria, Génova e Nápoles.

No fundo, os treinadores percebem como os jogos se podem controlar a meio-campo mas depois, na hora da verdade, decidem-se sobretudo nas duas áreas. Gervinho chega lá sempre primeiro que todos os outros.

Em cada campo, o sofrimento é um tributo que os adeptos pagam aos clubes que amam. Isto é Itália, Calcio Séc. XXI, 2014.