EM BUSCA DE UM “VELHO AMIGO”

30 de Julho de 2014

Percorro este Mundial e sofro ao ver como o verdadeiro ponta-de-lança referencia, que se avaliava mais pelos golos que marcava do que pelo que jogava, é cada vez mais raro. O velho Klose vive “jurassicamente” ao lado de exemplares em extinção como Fred, Dzeko, Mandzukic, Huntellar ou Lukaku (nenhum sem grande brilho e alguns aquecendo o banco). A última espécie pura que eu deteto, embora também se mova, em passada larga por outros locais, mas que vive essencialmente para mal veja a bola á frente espetar-lhe logo um chuto no meio para a baliza, é Higuain. Uma das razões para o considerar mesmo um jogador de área está no facto de fora dela me parecer quase inofensivo. Enquanto que dentro dela, pelo contrário, me parece uma ameaça. Não acho que seja só impressão minha.

Esta Argentina é uma equipa de sensações contraditórias. Tem, claro, o génio de Messi e a velocidade de Di Maria (agora com uma picada na coxa) mas o maior problema é viver demasiado condicionada (prisioneira) das ideias/receios do treinador e como tal condiciona a sua capacidade para se soltar com a bola. É uma questão de modelo. Honestamente, ainda não percebi (sem ser ao vivo mas em HD) como Sabella quer verdadeiramente jogar. Só, no máximo, como não quer deixar jogar. É pouco para um grande candidato.

É a história revista com receio (há 24 anos que a Argentina não chegava à meia-final). Tem Messi (e a bola volta a ser “redonda”). Só isso constrói um império emocional mas acabar contra a Bélgica (jogo soporífero) com Mascherano, Gago (que entrou ao 80 minutos saindo Higuain), Biglia e Enzo (preso a ala-direito) diz muito de como aquela equipa tem lutado para dar consistência a um jogo com bases tão flutuantes. Sabe unir o meio-campo à defesa, mas não consegue juntá-lo ao ataque.

Num jogo destes onde a equipa tem bola e raramente se percebe o que quer fazer com ela, encontrar um 9 como Higuain é quase um subversivo que redescobre-lhe o instinto. É. como de repente, encontrar a verdadeira equipa (o velho amigo que já não se via há muito tempo). E quando remata o futebol volta a fazer sentido.

O QUE ESTÁ DENTRO DESTA CABEÇA?

EM BUSCA DE UM VELHO AMIGOOlhamos para Van Gaal e imaginamos uma máquina trituradora em forma de treinador de futebol. Aquela substituição do guarda-redes no fim do prolongamento não sei se foi inédita. Tenho ideia, pelo que recordei e busquei, de uma Final de Sub-20 em 77, na qual os russos (com o México) fizeram o mesmo. Mas se calhar foi por lesão. Não tenho o jogo gravado, infelizmente. O mais cativante é ver como um treinador que parece um general tão longe dos jogadores (soldados) de repente fica tão perto deles na forma como festeja os golos ou olhava quase hipnotizado para a forma como, antes do prolongamento, Robben gritava e dava indicações ao grupo de jogadores que o ouvia atentamente.

Van Gaal entra na cabeça dos jogadores. Esse é que o segredo. Quer para os intimidar, e fazê-los sentir responsabilidade, como para os motivar, e fazer senti-los os melhores do mundo. Como se terá sentido Krull quando entrou e voou sempre para o lado esquerdo. O futebol, e uma equipa, necessita de muitas virtudes e variantes para ganhar jogo, mas é uma não visível antes de entrar que lhe dás as maiores forças: personalidade.