Em busca do «sexy football»

14 de Junho de 2008

O jogo de estreia da Itália num Mundial ou Europeu é sempre um momento para suster a respiração. A equipa entra em campo e a sensação que dá é que podíamos estar também no glamour de um desfile de moda em Milão e sentir a mesma coisa. Só Donadoni veste fato Armani mas toda a selecção, a postura dos jogadores, a forma de andar e os simples olhares, parecem estar prontos para desfilar numa passerele de relva. A Holanda é outro estilo. Continua a cultivar os sons e aromas da beat generation que revolucionou o jogo nos anos 70 e na sua cultura não existe o lado dramático do jogo. A bola circula e viaja de flanco para flanco com outro à vontade. Sorri mais. Nas botas italianas, parece estar a fazer um exame de matemática em cada passe. Já demos uma primeira volta completa por todas as 16 selecções deste Europeu, mas em nenhum outro jogo como o Holanda-Itália se sentiu o choque de diferentes escolas europeias.

Um jogo para perceber a importância do médio centro criativo e organizador. Órfão de Totti, o trequartista, perdeu a referência que une as linhas defensivas, o coração da filosofia italiana, com as mais criativas. E está aqui uma das palavras-chave que desequilibra os jogos tácticos do presente. Criatividade.

1. A posição de Ronaldo

Em busca do sexy footballÉ errado discutir onde Ronaldo deve jogar. A questão deve ser a partir de onde deve Ronaldo começar a jogar. Depende disso as dinâmicas que o seu jogo pode adquirir. Imaginem Ronaldo como ponta-de-lança. Que movimentos pode fazer? Curtos de um para um entre os centrais, lateralizações para a ala mas fugindo da baliza, desmarcações para receber um passe, ou, recuando no terreno, tentar depois furar pelo meio onde está a zona de pressão (trincos e centrais) mais forte do adversário.
Agora imaginem Ronaldo sobre um flanco. Que movimentos o vemos fazer? Recuando como gosta, arranques desde trás com a bola dominada em diagonais longas de fora para dentro, driblando em progressão, aproximando-se da área, para depois decidir no centro, remate (pé ou cabeça) ou surgindo entre-linhas a desequilibrar em trocas posicionais. Tudo sem nunca dar referências de marcação. Mais importante do que estar numa posição (espaço) é surgir na hora certa nessa posição (espaço). Por isso, Ronaldo não deve jogar no centro, mas sim ter as melhores condições para aparecer no centro.

2. Sinto um vazio por dentro…

Um Europeu sem uma única selecção britânica deixa no ar um sentimento de profundo vazio. Fazem falta os ambientes loucos que eles (escoceses, ingleses, irlandeses…) criam pelos locais por onde passam. Falo, claro, dos Estádios e não em cadeiras a voar nos bares. Sinto falta, até, dos grandes planos de Victoria Beckham. Existirão outros adeptos e mulheres bonitas, mas nenhum deles tem a magia dos britânicos, nem o lado pop-star da Posh.

A Republica Checa terá as mulheres mais bonitas do torneio, mas a principal, Alena Seredova, está com o guarda-redes da Itália, Buffon. A globalização do futebol tem muitos rostos. A paixão italiana de Seredova está fiel ao sexy football. Mais perturbante, são as globalizações dos relvados. Como ver a Polónia a jogar e de repente surgir Guerrero a driblar como nenhum polaco o faria. Aquele não era o futebol polaco. Era um brasileiro por entre Lewandovski ou Kriznoweck. A globalização choca com o lado emocional do jogo. No futebol e na vida. Por isso, Seredova faz sentido na bancada a torcer pela Itália mas Guerrero na Polónia é como colocar o mundo ao revês.

3. Alemanha,motor «eterno»

A Alemanha continua igual na mentalidade e músculo, mas está muito diferente a nível do talento. Não é uma situação nova. Problemas de geração e do seu futebol-base. Falar do futebol alemão nunca entusiasma ninguém. Por isso, este pequeno artigo até nem terá muito interesse. É que aqui não encontram, de certeza, aromas do sexy football. Parecem equipas feitas à navalha. Não transmitem emoções. Falha um golo incrível de baliza aberta e Gomez não deita as mãos à cabeça. Marcam pouco depois e no ecrã surge um grande plano do marcador, Podolski, e até fico com a duvida se o golo foi invalidado pois ele nem o festeja, nem um sorriso. O curioso é que Gomez tem origens hispânicas e Podolski polacas. Nas emoções e no futebol, já são, porém, apenas alemães. Para o bem e para o mal.

Mas a Alemanha é sempre candidata. Porque o motor invisível que deve esconder-se debaixo da relva nunca se desliga. O futebol não é resolvido por máquinas mas as melhores equipas nascemda mecanização. Parece contraditório, mas não é. Trata-se apenas de perceber a melhor relação entre o individual e colectivo.

Uma palavra que deve entrar na análise individual como na movimentação colectiva. Na essência, o passe e a mudança de velocidade. Com nomes próprios, Van der Vaart e Sjneider. Os problemas do jogo surgem e embora resolvendo-os de forma diferente, os holandeses fazem-no sempre com a mesma lógica, com as mesmas referências colectivas que baseiam ao seu modelo de jogo. É a aplicação máxima da criatividade individual numa filosofia colectiva.

A sedução do jogo holandês (ganhando ou perdendo) parte da boa relação que mantêm com o espaço e a bola. Foi Gullit que primeiro, anos atrás, definiu esse tipo de relação afectiva jogador-bola como sexy football. Apesar do seu estilo fashion, os italianos não têm, por princípio, esta relação em campo. Escrevem o jogo em papel quadriculado e (ganhando ou perdendo) retiram-lhe qualquer lado romântico ou sensual quando a bola começa a rolar.

A baixa intensidade da maioria dos jogos espelha os cadeados tácticos que envolve o futebol de top actual. O lado latino do futebol romeno montou uma teia-de-aranha defensiva que envolveu extremos e pontas-de-lança franceses. Foi uma aula de como defender. Como colocar uma mordaça no jogo. O perfume da técnica do jogo português seduz mas os problemas resolvem-se quase sempre pelo lado anárquico. Em vez de ser o lado colectivo a gerir a criatividade individual, é esta que, na organização ofensiva, gere os movimentos dos seus avançados. A única excepção é Nuno Gomes, um ponta-de-lança que move-se em função do colectivo.

Procurar sexy football nos relvados actuais não é fácil. É como procurar uma relação impossível e esperar que, por magia, todo o resto do mundo à volta desapareça. É, por isso, que a aparição holandesa foi quase como um triunfo de D.Quixote. Até quando?