Em busca dos paraísos perdidos

17 de Junho de 2008

Tento ver este Europeu como via outros do passado. Faço o mesmo nos Mundiais. Quando era a altura de, por fim, ver jogadores que só via em resumos ou em fotos de revistas estrangeiras. Nessa altura existiam, de facto, diferentes mundos no Planeta do Futebol. Estilos que se esfumaram. Onde sinto mais o impacto da diferença é no perfil de jogadores por posição. Antes, era como ficarmos longe de um local que nos é comum, mas quando lá voltávamos tudo, embora respeitando as tendências da época, estava tudo na mesma.

Penso nisso ao ver os defesas alemães. Beckenbauer marcou a história, mas com ele depois Forster, Aughentauler, Sammer, e outros monstros com classe. Metzelder e Mertesakaer, a actual dupla de centrais alemã chega a arrepiar ao fazer-se esse confronto de épocas. O libero alemão é um livro fechado. Acho que é nestes pormenores, na identidade de algumas posições, que melhor se percebe para onde caminha o futebol nas diferentes selecções.

A Espanha, apesar da técnica que Xavi, Iniesta ou Cesc, continua, embora longe do estilo tauromáquico do passado, com o mesmo carácter. Olho o passado, e imagino Sarabia a jogar nesta equipa, um médio basco que deslizava pelo campo e em 84 parecia jogar de patins. Já me custa mais imaginar Juanito jogando sempre com o coração na boca. A velha fúria tem um descendente claro: Puyol. Parece ir a cada bola em esforço, culminando com carrinhos loucos que o deixam todo descabelado.

Onde a decoração continua fiel às velhas tendências é na Itália e na Holanda. A bola sofre ou sorri da mesma maneira nos pés de um grupo de jogadores que, talvez mais que outros na Europa, ainda tem os princípios do futebol de rua na base dos primeiros pontapés na bola. É este o segredo para preservar identidades. Manter a escola da rua. A raiz da identidade. O futebol de leste é outra história. Nesse caso, o mundo mudou mesmo.

A evolução do jogo português passa mais pelo lado interior. Superar a insustentável leveza do nosso ser passado e erguer o nariz na relva com outra personalidade. Mais rock and rool do que fado. Saltar fronteiras. Não se trata de trair a nossa raiz musical ou o nosso estilo de jogo. Trata-se de lhe dar outro ritmo. Fazer da técnica a caixa de velocidades. Há um abismo, porém, a separar o nosso choque com a Alemanha do Euro-84 até ao de 2008. Para os dois lados.

Aquela bomba de Ballack terá despertado velhos fantasmas musculados, mas já não há perigo de alguém se assustar ao ver um monstro meio desengonçado com as meias em baixo a aproximar-se de nós. Era Briegel. No lado mais táctico, já se reconhecem no relvado outros caminhos para a bola entrar. Os radars mais técnicos já detectam os passes longos com outra astúcia. E, com a bola, já a escondemos com sorriso matreiro.

Serão sinais dos tempos. Promessas de paraísos perdidos, duelo entre épocas que torna os Europeus e Mundiais mais do que marcos de evolução táctico-futebolistica, quase antes marcos da evolução social e psicológica de cada selecção, de cada país.

1. Nihat e um país aos pulos por trás

Em busca dos paraísos perdidosOs jogos de futebol ganham maior dimensão épica quando criam heróis. A quinze minutos do fim, a Turquia parecia condenada. Perdia 0-2 com a Republica Checa. Um golo despertou a ambição. Os minutos finais, sob chuva, tornaram o jogo num vendaval turco. Os checos tentavam segurar a bola, mas nestes momentos, com o jogo selvagem, não há analise táctica que convença um simples mortal adepto. Muito menos quando herói da vitória impossível é um baixinho que ainda mete uma velocidade superior no jogo. Nihat passara o Europeu encafuado entre os centrais adversários. Sem conseguir respirar. Quando no minuto 92 viu, depois de um recuo entre-linhas, um espaço para furar pela atordoada defesa checa levava um país inteiro aos pulos atrás dele. Cech tentou tapar toda a baliza. Duelo para mais tarde contar aos netos à lareira. O remate de Niaht, a bola ainda bate na barra para tornar a cena mais frenética e entra.

Golo.3-2! Minuto 93. Deitei então fora os rabiscos tácticos e, desculpem, senti-me um pouco turco. Ganhar assim não pode deixar indiferente ninguém que goste tanto de futebol.

2. Mensagens de Van Basten

Em busca dos paraísos perdidos 1A influência de um treinador durante um jogo pode ter várias faces, mas, em geral, é difícil fazer grandes mudanças. Há mensagens, porém, que fazem a diferença. As substituições. Para além da alteração táctica, transmitem receio ou coragem. As decisões de Van Basten durante o jogo com a França foram um bom exemplo. A ganhar ao intervalo, sendo previsível a forte reacção gaulesa, em vez de pensar em como fechar a porta, metendo um médio mais de contenção como De Zeeuw, opta antes por tirar o mais defensivo, Engeelar, e lança um extremo, Robben.

O jogo continua, a França aperta, e Van Basten volta a resistir à tentação. Não mete De Zeeuw, nem um defesa como Heitinga, para combater os quatro avançados franceses, e dá outra dinâmica ao… ataque, lançando Van Persie. São eles os dois, Robben-Van Persie que constroem o segundo golo holandês. Um poema de como atacar em velocidade, com precisão, no sprint, na finta, no cruzamento, no remate, no golo. Portanto, não perguntem mais o que é decidir e jogar bem. Peguem no DVD do Holanda-França e decorem-no do primeiro ao último minuto.

3. A marca grega

Em busca dos paraísos perdidos 2Édos feitos que um treinador se deve sentir mais orgulhoso. Chegar a uma equipa sem rosto e dar-lhe uma personalidade própria à sua imagem. Foi o que fez Reeaghel na selecção grega. Poderão dizer que não há nada de atraente no jogo grego, que é defensivo e cínico. É verdade. Mas há identidade. Uma filosofia que serve de bússola táctica à equipa em campo. E todos os jogadores se orientam por ela. Os que resistem da epopeia de 2004 e os novos. Variou entre o 5x3x2 e o 4x3x, mas manteve o mesmo movimento combativo a meio campo, com Karagounis nos principais desequilíbrios só que perdeu a classe de passe cirúrgico de Tsartas. A batuta recuada de Bassinas foi curta. É o único caso no futebol de top em que o sistema supera os próprios jogadores.

Antes do jogo decisivo, Rehhagel dissera, fiel ao seu evangelho, que “se atacarmos muito, perdemos”. Atacaram pouco. Perderam na mesma. Caíram na primeira fase deste Euro-208 da mesma forma que ganharam a prova há quatro anos. Uma prova insofismável que, afinal, todas as fórmulas tácticas são ganhadoras ou perdedoras.