Em ritmo de Cruzeiro

29 de Julho de 2014

1. Descobrir qual é o toque de Midas que leva o Cruzeiro a liderar de forma clara este Brasileirão 2013 é detectar a europeização crescente do estilo do futebol brasileiro no sentido tático do termo. Falo sobretudo no equilíbrio dos sistemas, dominados pelo 4x2x3x1 que embora ainda sem extremos puros, está cada vez mais próximo do rigor europeu sem bola. É cada vez menos os outrora dominantes sistemas de defesa a 3. Um progresso de maturidade táctica, mas de recessão artística.

Assim, quem cai nas faixas agora são os principais criativos das equipas que deixam o centro, um espaço de maior combate, para jogadores que embora também com técnica, são sobretudo mais intensos/agressivos na ocupação de espaços.
No caso deste Cruzeiro de Marcelo Oliveira, esse artista é Everton Ribeiro. Partindo desde a direita, o seu pé esquerdo faz o que quer da bola, no controlo, finta, e poder de ruptura em diagonais (com triangulação incluídas) que furam as defesas adversárias.

Tendo como ponta-de-lança o sábio Borges, 33 anos, que joga quase de memória entre os centrais, mete a 10 um jogador menos talentoso tecnicamente, mas mais cumpridor tacticamente: Ricardo Goulart. Tem apenas 22 anos, mas, robusto, parece um jogador com mais idade. Segura a bola e sabe mover-se, sem ser muito rápido, atrás dos avançados (Borges ou os alas nas diagonais). Na outra faixa, a esquerda, Willian também pensa o jogo primeiro antes de arrancar com a bola e, por isso, ganhou o lugar a Dagoberto, mais vertical rumo à baliza.

No coração do meio-campo, os dois volantes de combate e condução: Nilton, mais fixo, e Lucas Silva, mais a sair, mas ambos estruturalmente posicionais, à frente dos centrais Dedé-Bruno Rodrigo, num onze que tem no lateral-direito Mayke, 20 anos, a principal revelação, fazendo todo o corredor a atacar e defender.

2. Vendo as equipas que mais se aproximam da liderança, Grémio, At. Paranaense e Botafogo, detectam-se princípios semelhantes com normais adaptações às características dos seus jogadores.

O futebol da região sul continua o mais competitivo fisicamente. O At. Paranaense é o melhor exemplo. Equipa de bola dividida e com avançados rápidos na frente, onde Ederson é uma seta móvel, combinando com Elias ou Dellatorre, numa espécie de 4x4x2 com médios que lutam mais pela bola do que fintam com ela.
Aos 39 anos, Paulo Baier é o patrão do sector, que tem em Everton o motor das transições atrás e à frente. Com uma dupla de centrais de aço (Luiz Alberto-Manoel) gosta de ganhar uma dividida a meio-campo e depois meter a bola rápido na...velocidade dos avançados.

O Grémio alterna entre o 3x5x2 e 4x3x3, embora neste caso é um falsa estrutura pois não tem extremos típicos mas sim dois avançados móveis (Kleber e o chileno Vargas) em torno do pirata Barcos, um 9 fixo e inestético mas que ganha muitas bolas pela forma como luta por elas com o corpo todo. No meio-campo, Souza equilibra e Ramiro manda nas transições.

O Botafogo tem nome e duas pernas: Seedorf. É ele, com a alternância do seu maior ou menor rendimento, que faz crescer ou encolher a equipa. Joga a 10 partindo preferencialmente desde a meia-esquerda, num falso 4x2x3x1 (com Marcelo Mattos-Gabriel no equilíbrio da dupla de volantes) e o serpentado Lodeiro solto à esquerda, mas a procurar demais as finas, perdendo objectividade na conclusão das jogadas.

O melhor futebol brasileiro torna-se cada vez mais táctico. A vitória do Cruzeiro é um triunfo desse estilo com as fintas de Everton Ribeiro pelo meio.

As ‘bolachas’ de Walter

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Só de olhar para ele mete impressão. Nem os veteranos aparecem com uma barriga daquelas nos jogos de exibição. Walter está com 92 kg (espalhados pelos seus 1,78m)! Mais impressão porém, suscita, olhar para os seus registos no Brasileirão: 27 jogos e 12 golos, como ponta-de-lança do sensacional Goiás (5ºlugar). E ainda mais engraçado é ver que quando teve menos peso, Walter fez...menos golos (e jogou menos). Todos se lembram dos problemas que teve no FC Porto por causa do peso.

Diz beber dois litros de refrigerantes por dia com pacotes de bolachas recheadas e não está disposto a mudar. O seu sucesso nos gramados brasileiros é (custa dizer) um dado que desvaloriza o futebol/campeonato brasileiro, onde um avançado com este, digamos, perfil físico, consegue marcar a diferença. É claro que o ritmo é mais lento, mas na Europa seria impossível todo este cenário.
Um factor, porém, deve ser realçado: a inteligência de movimentos de Walter em fugir às marcações, sabendo cair/esconder-se no chamado lado cego dos defesas, as suas costas, e, depois, aparecer a facturar. Se a técnica não tem idade, a inteligência, no Brasil, não tem... peso.