Empatar jogando apenas “meio-jogo”

20 de Junho de 2016

Um penalty falhado com a bola a bater no poste quando a baliza já estava aberta pelo guarda-redes ter caído para o outro lado, pode parecer mais um fado para o futebol português, mas mesmo num jogo em que se jogou quase sempre em cima da área da Áustria, esta não será a melhor forma de explicar o segundo empate luso.

Inventando um novo sistema sem ponta-de-lança, a Áustria procurou uma estratégia para ganhar um “jogo inteiro”, jogando apenas “meio jogo”, o jogo defensivo fechando espaços junto à sua área, colocando Alaba vagabundo na frente por onde Harnik procurava alguma bola perdida. Esta forma de jogar confundiu de inicio a ideia de jogo de Fernando Santos, que após uma vida na seleção a trabalhar em 4x4x2, resgatou o nosso velho 4x3x3 em mobilidade (mas sem nº9 clássico).

Com o inicio de construção feito sem pressão, Portugal podia colocar rapidamente a bola na entrada dos últimos 30 metros, onde estava o muro austríaco. O jogo interior aumentou a profundidade (e a colocação para recuperação rápida com André Gomes mais junto de Moutinho) combinando com a largura dada por Quaresma na faixa, procurando desequilibrar no um-para-um.

O jogo, porém, caiu vezes demais no “posicionamento fixo colectivo austríaco”, contra a “mobilidade anárquica colectiva portuguesa”. Um confronto entre tentar “fechar e abrir espaços”, no qual o rigor defensivo da Áustria abanava quando surgia a criatividade portuguesa nas nossas tabelas. A bola no poste, a grande defesa do guarda-redes austríaco, os remates de Ronaldo que saíram ao lado.

quaresma vs austria

Foi uma questão de sistema?

A ameaça do golo português crescia no jogo, mas não parecia mudar a forma austríaca de o pensar. Pelo contrário, a cada oportunidade portuguesa falhada, crescia a confiança austríaca, mesmo que saísse cada vez menos da sua zona recuada. O contra-ataque dependia de algum erro luso.

Perante uma ideia de jogo adversária tão fechada, o facto de Portugal estar a jogar em 4x3x3 em vez de 4x4x2, não chegava a ser tema de debate. As movimentações não iriam melhorar mudando a estrutura, mas a troca de Quaresma por João Mário quase que colocou Portugal no meio dos “dois sistemas”, sem definir o “jogo posicional” para aplicar a melhor dinâmica ofensiva.

O pensamento do nosso jogo como que se dispersou, procurando explicações em tantos sítios diferentes para o que estava a acontecer, que acabou sem conseguir raciocinar perante as situações mais simples.

Chegar ao fim com 0-0 jogando apenas esse “meio jogo” foi o maior triunfo da estratégia austríaca. Deixar o jogo ir até ao apito final sem concretizar uma oportunidade e com a ansiedade anárquica a dominar cada jogada de ataque, foi o maior fracasso das nossas variações de ideologia.