Entre a “seta” e o “alvo”

25 de Junho de 2012

Gosto de dizer que um treinador joga sempre “três jogos”: o imaginado (nos dias prévios em que o prepara), o real (90 minutos na relva) e o posterior (quando fica a pensar no que aconteceu e porquê). O segundo, porém, tem vida própria. Exige uma espécie de sexto sentido táctico perante um eventual conflito com o imaginado.Disse Blanc que, contra a Espanha, a estratégia era aguentar o 0-0 até meio da segunda parte (por isso jogou com dois laterais-direitos, subindo Debuchy para falso ala e metendo Reveillere atrás) e, depois, surpreender passando ao ataque (tirar o lateral-extra, meter outro extremo, Menez e, no lugar de um medio de contenção, Malouda, meter um ofensivo, Nasri). Assim fez, mas quando mexeu respeitando o jogo imaginado, já estava a perder no jogo...real.

m desequilíbrio no resultado que resultou de um...desequilíbrio na forma de jogar e que cruza-se com um problema que muito tem sido também discutido em Portugal a propósito de Ronaldo: o problema de um dos extremos/alas não defender (isto é, não recuar quando se perde a bola).

Na França, isso sucede com Ribery, também na faixa esquerda, onde a Espanha, com a subida de Xabi Alonso, surgiu a finalizar sozinho um cruzamento ao segundo poste (Clichy tinha, naturalmente, basculado para fechar por dentro). Noutros jogos, esse síndroma do ala que não defende também atacara a Holanda (com Robben adormecido na frente), a Grécia (com Ninis sem intensidade de recuperação), e, claro, Portugal (no dramático jogo com a Dinamarca).

O paradoxal é que, pelos nomes, vê-se que falei nos jogadores mais perigosos de cada equipa. O que torna, afinal, tudo isto mais perturbante. É obrigatório, então, procurar equilíbrios porque, tacticamente falando, o lado por onde se tem mais poder/capacidade para matar, não pode ser também o lado por onde se tem mais probabilidade de morrer! Esconde-se nesta última frase a moral da história de muitos jogos. Para fugir ao perigo desse destino é necessário criar mecanismos (sub-principios de jogo específicos) para a equipa se proteger nesses momentos. Vejamos no texto seguinte.

“Subprincípio” a fechar

Entre a seta e o alvoRonaldo não defender não é indisciplina táctica. É um principio de jogo assumido por Paulo Bento. Compreendo que é importante manter o seu génio sempre fresco para o jogo mas face a adversários fortes que ataquem bem pelo seu flanco, é urgente criar um subprincípio de jogo em que Ronaldo, em certos momentos, tenha mesmo de recuar sob pena de ficarmos expostos ao paradoxo que referi acima (o flanco por onde matamos ser o flanco por onde tens mais hipóteses de morrer).

O risco nem é tanto quando o adversário sai a jogar pela direita. Nessa altura Ronaldo baixa naturalmente a acompanhar a jogada. O perigo é quando saem pela esquerda e, depois, já no nosso meio-campo, viram rapidamente o jogo para o outro flanco e metem profundidade. Nessa altura, apanham Ronaldo sempre adiantado. Exige-se, então, que o nosso meio-campo rode/bascule rapidamente em compensação mas isso é muito desgastante em 90 minutos. É inevitável começar a abrir espaços. Viu-se com a Dinamarca. Face a esta viragem rápida de flanco, é obrigatório o subprincípio de Ronaldo recuar nessas alturas. Questão de proteção táctica coletiva.