1930-2014: OS “CICLOS DE PODER”

02 de Agosto de 2014

TENDÊNCIAS

1930-2014: OS “CICLOS DE PODER”

A luta eterna entre o “Futebol da técnica” e o “Futebol da força”. Após longos anos de confronto perceberam que não podem viver um sem o outro.

Ao longo dos tempos, seguindo os Mundiais e todo o “Planeta do futebol”, podemos distinguir, em termos gerais, diferentes ciclos de poder no futebol europeu e mundial.
Anos 30/50- Período áureo do futebol centro-europeu (Áustria, a “Wunderteam” de Meisl -que, na segunda Grande Guerra, os alemães anexaram e impediram de participar no Mundial-38- Hungria e Checoslováquia). Na América do Sul, o futebol do gigante estuário de Mar del Plata, Uruguai e Argentina, extensões sul-americanas do jogo latino (com inspiração sobretudo italiana na táctica e atitude) mas temperada com a maior técnica local. Foi no Uruguai que nasceu a primeira grande estrela das histórias dos Mundiais: Andrade, em 1930, misto de futebolista e bailarino. A sua história é uma letra de tango.
Anos 50/60- Período de consolidação da técnica da escola latina (Itália, Espanha e Portugal com influências ultramarinas). O fim da década de 60 revela, porém, o nascer da ameaça poder do futebol mais físico. Na América do Sul, o Brasil aprende vendo os húngaros a jogar, adopta o 4x2x4 e faz da técnica o seu... instrumento táctico. Nascem, em 58, os jogadores que ganham jogos sozinhos: Pelé, Garrincha, Didi e outros magos. É um tempo em que, sendo o jogo mais lento, a técnica domina e ganha jogos. De 58 a 70, o Brasil fez do futebol “poema com bola”.
Anos 70- Ciclo de apogeu do futebol força e da condição atlética (Inglaterra, com, em 66, o seu “wingless system”, o sistema sem alas que fazia subir laterais e cruzava muitas bolas em jogo direto, Alemanha, que exacerba o poder muscular como arma para dominar jogos a meio-campo, e a visionária Holanda, os profetas do “futebol-total” com constantes trocas posicionais por todo o campo). Na América do Sul, a técnica brasileira pós-70 de Pelé, perde tempo e espaço de execução. Os argentinos e uruguaios endurecem o lado técnico do seu futebol e tornam-se essencialmente “seleções de guerrilha”.
Anos 80/90- Período de equilíbrio entre o “futebol da força” e o “futebol da técnica” (Itália, Alemanha e França), ao mesmo tempo que se via o apogeu e queda, nos relvados e na vida, do futebol de leste (URSS, Polónia, Jugoslávia). A América do Sul segue as mesmas tendências e também se converte ao poder da táctica para dar competitividade internacional à sua técnica. É a “dungazização” do futebol brasileiro.
Anos 2000- Aos poucos, a força deixa de, por si só, ditar leis. É impossível técnica e músculo viverem separadas. Quem melhor os unir através da tática ganha mais jogos. Brasil, na América do Sul, e Espanha, na Europa, são quem melhor percebe, redimensionando ou criando os seus estilos naturais, essa forma de “construir o jogo”.

DESTAQUE:

Os latinos na vanguarda do jogo e a América do Sul como “extensão estilística”

ARGENTINA: O MELHOR “TANGO”

Na América do Sul, a Argentina foi sempre quem promoveu o maior debate sobre diferentes formas de abordar o jogo. Criaram várias correntes, sendo a mais célebre a que opôs Menotti (campeão de 78, profeta do futebol-arte com técnica) e Billardo (campeão em 86, para quem espetáculo é no teatro, no futebol só importa ganhar). O seu estilo mudou conforme as teses dominadoras. Houve um tempo que se tornou demasiado duro. Depois, regressou ás raízes e voltou a perfumar-se com técnica. Nesse percurso, Maradona plana sobre todos estes debates meramente terrenos. O titulo de 86 foi uma superior obra “maradoniana”. Sem ele, era impossível aquela equipa atingir essa dimensão.
Depois disso, nunca mais a Argentina voltou a ganhar, apesar de ter sempre grandes seleções (ou grandes jogadores). Ainda foi à Final de 90, mas depois disso Basile, Passarela, Bielsa, Pekerman e a tentação de Maradona treinador, falharam o reencontro com o Olimpo.
Em todas estas “aventuras mundialistas”, falando de futebol puro, a seleção de 78 merece, numa perspectiva histórica, um olhar mais atento. Nenhum daqueles jogadores entrou com um metralhadora em campo.
Rever os jogos daquela equipa nesse Mundial, é descobrir uma equipa com grande garra e poder ofensivo. O sistema era um 4x4x2 mas, a atacar, era quase um 4x2x4 pois os alas mais do que médios eram verdadeiros extremos. Passarela chefiava a defesa e a saída de bola em condução altiva. Tarantini, à esquerda, e Olguin; á direita, fechavam os flancos, o que permitia que Bertoni e Ortiz tivessem liberdade e abrissem toda a frente de ataque. Quem ficava a equilibrar, a trinco, era Galego, e o 10 organizador era Ardiles, que também vinha pegar na bola atrás. Era um futebol de grande rotação física que tinha na frente Kempes, que gostava de recuar no terreno para fugir ás marcações, surgindo depois na área, onde estava sempre Luke, ponta-de-lança de cabelos longos, bigode zapatista e remate forte. Uma grande seleção.

ÁFRICA

O PODER “NEGRO”

A evolução do futebol africano nos Mundiais revela a progressiva viragem do poder da região norte para as centrais, isto é, da chamada “África branca”, historicamente estruturalmente mais desenvolvida para a “África negra”, onde o talento corre mais solto.
Desde que em 1982 surgiu uma atraente seleção dos Camarões, com um guarda-redes gigante a defender de calças e que ficava estático quando os adversários se isolavam, N`Kono, e um avançado “sem idade”, Roger Milla, todos passaram olhar de forma diferente para aquelas seleções de futebol enigmático.
Em 90, estiveram quase a eliminar a Inglaterra nos quartos-final. O Senegal de Diouf (2002) e o Gana de Asamoah (2010) também estiveram perto, mas ainda nenhuma seleção africana chegou às meias-finais dum Mundial.
2014 volta a meter, entre as cinco apuradas, quatro “seleções do futebol negro” (Costa do Marfim, Gana, Camarões e Nigéria) que combinam malabarismo, dança nos aquecimentos, fintas e, o mais importante no plano competitivo, cada vez maior disciplina táctica.
Quase todos os seus jogadores, operários e estrelas, vêm do futebol europeu. A Costa do Marfim de Drogba emerge hoje como a seleção potencialmente mais forte. A origem da sua revolução futebolística tem origem, porém, num missionário investidor belga, Jean Marc Guillou, que nos anos 90, fundou uma Academias de futebol em Abidjan e, a parir dai, criou um centro de desenvolvimento (físico, médico, mental, técnico e táctico) de todos aqueles talentos em bruto. A “geração de ouro” marfinense vem desse “laboratório” de futebol.

DESTAQUE:
O futebol da região norte, “África branca”, para a central, “África negra”