Torino 1942-1949: Eternamente Campeões

26 de Julho de 2016

O romance do Grande Torino dos anos 40, iniciou-se, no final da década de 30, com a chegada á presidência do clube fundado no inicio do século por uma série de dissidentes da Juventus, do lendário Comendador Ferruccio Novo, um influente industrial de Turim. Desde ragazzo que era um apaixonado pelo Torino, onde jogara nos juvenis. Com o tempo, fizera-se homem e, numa época em que o futebol era para românticos, a vida destinou-lhe trabalhar com o irmão numa fábrica de utensílios de couro, que ambos geriam em conjunto.

É por entre o barulho das máquinas, que Ferrucio Novo, então com 42 anos, sobe em 1939 á presidência do Torino, onde já se encontrava como director. Apaixonado pelo Calcio e gestor de empresas bem sucedido, vai conciliar estes dois factores na direcção do seu Torino. Avançado no tempo, ele será o primeiro homem a entender, e a antecipar, o modelo orgânico que iria, dali a muitos anos, reger os clubes de futebol, sociedades futebolísticas, distante do conceito de mecenas que então começara a invadir todos os clubes, um pouco por todo o mundo.

Visionário, Ferrucio decide profissionalizar a direcção do clube. Á imagem empresarial, cada membro tinha uma competência específica, com respectiva área de autonomia e poder de decisão. Num tempo em que a cultura multieuropeia da Hungria e da Áustria produzia, junto com os ingleses, o melhor que se via no futebol mundial, decide rodear-se de treinadores com essa formação.

Foi o caso de Ernst Egrierbstein, um húngaro de religião hebraica que, para além de entender de futebol, ex-jogador do BAK de Budapeste, era professor de educação física e famoso por ser um grande condutor de homens.

torino sistema

É ele que, apoiado na visão de Ferrucio para a contratações de jogadores e descoberta de talentos, no que era apoiado pelos conselhos e influências do mítico Vitorio Pozzo, seleccionador campeão do mundo em 34 e 38, seu amigo pessoal, vai começar a construir o Grande Torino. As bombas da guerra tornavam-se, no entanto, cada vez mais intensas.

Aos poucos, a louca perseguição antisemita de Hitler invade todo o mundo. Num país dominado por Mussolini, Erbstein sente a ameaça aumentar e, com a família pela mão abandona em fuga o país. Deixara, porém, em gestação uma grande equipa de futebol.

É assim, no verão de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, que o emblema do Toro, após na época anterior ter terminado no segundo posto, contrata o fabuloso grupo de calciatore que iria formar a grande squadra dos anos seguintes: Da Juventus, chegam o guarda redes Bodoira, o lateral Borel e o avançado centro Gabetto. Da Fiorentina e da Ambosiana-Inter, chegam, respectivamente, os dois médios ala Menti e Ferraris. Do Varese, Ossola, e da Triestina, Grezar.

Apesar da categoria de todos eles, seria, no entanto, de Veneza que chegariam os grandes nomes capazes de, sozinhos, virar um jogo: o médio avançado, Loik e o maestro nº10 Valentino Mazzola, então já credenciados internacionais.

torino mazzola

Valentino Mazzola era o Rodolfo Valentino dos relvados. Um futebolista á moda antiga, daquele que mandava flores, perfil de galã de cinema mudo, cabelo coberto de brilhantina, passos elegantes e a bola tratada como uma peça de cristal. Um perfil latino, romântico e sedutor, mas que, quando as circunstâncias o exigiam, também cerrava os dentes e voava para um tackle.

Foi o primeiro grande nº10, entendido como o regista do colectivo, no futebol europeu. Antecipou o futebolista moderno. Forte fisicamente, perfeito controlo de bola, drible apurado, grande visão de jogo e remate forte. Para ele, a bola não tinha segredos. Fez 170 jogos com a maglia granata e apontou 97 golos. Morreu com 30 anos. Para muitos que ainda o viram em acção ele foi o melhor jogador italiano de todos os tempos.

Tacticamente vivia-se um período de transição. De Londres, chegavam os ecos de um revolucionador sistema inventado, no Arsenal, por um mago técnico chamado Herbert Chapman: o “WM”. É nesse novo sistema, interpretado por jogadores de grande talento e inteligência que, na época de 1942/43, o Torino, então treinado por Andrea Kutik e, depois, por Antonio Janni, inicia, abandonando o velho método de 2-3-5, o seu demolidor ciclo de domínio.

O titulo desse ano já fora conquistado por entre as bombas da guerra. Toda a Itália está feita em estilhaços, dividida entre fascistas e partigiani, os resistentes que apoiavam as forças aliadas. Nesse contexto, o futebol não pode continuar e, em 1943, o Calcio sucumbe á guerra e até 1945 os campeonatos param.

Finda a guerra, com Mussolini enforcado em plena praça pública, toda a Itália regressa aos poucos á vida. O futebol vai, por entre essa atmosfera de ressurreição nacional, desempenhar um papel fundamental. Ele, com os seus mágicos calciatore e os Estádios cheios, serão uma fonte de alegria dentro de um país que recuperava dos traumas da guerra.

Dois anos depois, o Torino ainda conserva o onze que, em 1943 começara a deslumbrar todo o Calcio. Ás estrelas que formavam a base do onze, juntam-se o guarda redes Baciglupo, do Savona, o lateral Ballarin, da Triestina e o médio Castigliano, do Spezia. Ainda fora do país, Erbstein espera pelas melhores condições para regressar.

É com Luigi Ferrero no banco que, em 1945/46, o Grande Torino reinicia a sua cruzada vencedora. Os analistas actuais que tiveram o privilégio de ainda verem in loco essa grande equipa falam que ela antecipou em, pelo menos 20 anos, o chamado Futebol Total que surgiria nos anos 70, base do futebol moderno. Era um jogo onde os jogadores não tinham posição fixa no terreno.

Dotados de grande condição atlética corriam o campo todo, desdobravam-se em compensações e todos tinham a baliza na mente. Imparavel, conquista os primeiros dois Scudettos do pós-guerra. Em 1947, Erbstein regressa ao clube. O presidente Ferrucio Novo recebe-o de braços abertos. Junto com Roberto Copernico, vão continuar a epopeia futebolística.

Os seus jogadores, com Mazzola sempre como grande líder terreno e espiritual, ganham uma áurea divina. Em 48/49, Novo sente que é hora de renovar econtrata o médio húngaro Schubert e os avançados franceses Bongiorni e Grava. O campeonato, porém, não começa bem. Os resultados não surgem e Novo decide afastar o técnico inglês Leslie Lievesley, pedindo a Erbstein, então director técnico, para regressar ao banco. Incapaz de dizer não, o húngaro volta a pegar na equipa e, num ápice, o Toro retoma a senda de vitórias.

A fama quase sobrenatural da equipa começa a percorrer toda a Europa, mas, num tempo em que as competições europeias ainda não tinham sido inventadas, faltava a consagração internacional e esta fabuloso onze. Aquelas fantásticas exibições eram quase exclusivas dos italianos e dos tifossi que, em dia de jogo, enchiam as bancadas do velho Estádio Filadélfia, casa do Grande Torino. Por isso, muitas vezes, Ferrucio Novo aceitava disputar particulares por essa Europa fora. Em todos os países por onde passavam eram recebidos quase com honras de Estado.

É dentro desse espirito que, a 3 de Maio de 1949, se deslocam a Lisboa para defrontar o Benfica na festa de despedida do capitão encarnado Francisco Ferreira.

torinofuneral

Após o jogo, que o Benfica venceu por 4-3, a comitiva embarcou de regresso. Apesar do mau tempo, tudo parecia normal no momento em que o avião que a transportava, se fez á pista do aeroporto turinense. Mas, quando se prepara para aterrar, o temporal intensifica-se e os pilotos perdem o controle do avião, que, desgovernado, esmaga-se contra a colina de Superga, nas traseiras da Basílica com o mesmo nome, ás portas da cidade. O estrondo foi gigantesco. Não houve um único sobrevivente!

Morrem 31 pessoas, quando o avião que traz a equipa de Lisboa se despenha no momento em que se prepara para aterrar. Entre elas estão os 18 jogadores do Grande Torino dos anos 40: Mazzola, Rigamonti, Grava, Loik, Baciglupo, Ballarin I, Ballarin II, Fadini, Castigliano, Gabetto, Bongiorni, Gezar, Maroso, Martelli, Menti, Ossola, Operto e Supert; 2 Treinadores: EgriErbstein e Lievesley, e 2 dirigentes, Agnisetta e Civalleri.

Um sentimento de desespero e emoção percorreu toda a Itália. Todo o Grande Torino morria naquele terrível acidente. Com todo o mundo em estado de choque, o funeral colectivo dos míticos jogadores fica para a eternidade como a maior manifestação de dor e sofrimento que alguma vez viveu o futebol mundial. Na memória de quem ama o futebol, serão eternamente campeões.

(Este texto faz parte do livro Planeta do Futebol, editado em 2009, 3ªedição, onde fazendo uma viagem pelas origens e presente do futebol moderno, busco a alma, os magos e as tácticas que fizeram a história)

lfllivro