ABDON PORTE

16 de Junho de 2005

Dele se dizia que tinha a vantagem de jogar com três pés, sendo um deles a cabeça, com que se impunha, nas alturas como um gigante, travando os mais perigosos avançados. Levitados pelo entusiasmo, os registos falam um defesa central que metia medo aos pássaros que quando o viam começar a subir, fugiam para bem longe. Chegara ao Nacional com 20 anos, em 1911, vindo do modesto Libertad. Era um chico humilde, que mal sabia escrever, mas como jogador do grande Nacional, conseguiu um bom emprego como arquivista ganhando 50 pesos. Depois, nas canchas, tornara-se um ídolo das multidões, vencedor da primeira Copa América, em 1917. Desfrutava agora dos prazeres da vida e passeava-se orgulhoso com a sua formosa noiva, suas irmãs e mãe, oriundas de uma boa família de Montevideo que gostava de o receber em sua casa. a sua vida tornou-se um paraíso, para um muchacho que antes parecia condenada á pobreza.

Os designios do futebol são, no entanto, insondáveis. Durante 207 jogos, ao largo de quatro anos, foi titular indiscutível, até que começou a fraquejar. Falhava cortes, os avançados passavam por ele a brincar e começou a ouvir alguns assobios... Perante isto, o treinador tirou-o da equipa. Abdon caiu do céu. Entra e profunda depressão, pede para regressar, mas, numa época em que não eram permitidas substituições, passa muitos jogos na bancada. As pessoas olham para ele de lado, murmuram qualquer coisa e ele sente-se envergonhado. Depois da glória ter chegado sem avisar, era agora a vez da decadência o tocar sem antes se fazer anunciar.

Porte não estava preparado nem para um a coisa nem para outra. Implora que o deixem voltar a jogar. Talvez cansados de ouvir suas súplicas, os directores voltam a colocá-lo em campo. Nervoso, tudo lhe corre a mal. Conta-se que até as tartarugas passava por ele. Poucos dias depois comunicam-lhe que, com muita pena, o clube decidira dispensá-lo. Ficou destroçado. Tinha data de casamento marcada e não suportava a ideia da decadência e ter de abandonar o clube que tanto amava.

Continua a treinar-se e aparecer pela noite no clube para conversar, como era habitual fazer-se nesse tempo. Recuemos, então, até ao serão de 5 e Março de 1918. Porte fica até há uma da madrugada na sede social do clube, quando, depois de olhar o relógio e reparar que o último comboio para Únion estava quase a partir, se despede de todos e sai apressado. Desce as escadas e, profundo conhecedor das instalações, entra no relvado do Parque Central. Estavam todas as luzes apagadas. Escuridão total e um silêncio sepulcral. Decidido, aponta uma arma ao coração e dispara. Cai de imediato fulminado.

Seria encontrado no dia seguinte, tombado morto no centro do terreno com duas cartas agarradas á mão. Uma para sua família, outra para o Nacional, dirigida ao presidente José Maria Delgado: "Querido Doutor, Peço-lhe que olhem por minha velha e por minha noiva como eu me dediquei por vocês. Adeus querido amigo, que esteja sempre á frente do nosso Nacional, agora e sempre o clube gigante. Viva el club Nacional! Não esquecerei um instante, o muito que te amei Adeus para sempre no cemitério de La Teja junto de Bolívar e Carlos" Dono de uma personalidade conturbada, mentalmente frágil, não suportara deixar de ser uma glória das canchas. Preferiu a morte á decadência. Como último pedido, rogou ser sepultado junto dos irmãos Céspedes, Bolívar e Carlos, míticos jogadores do Nacional também falecidos anos antes.