ANDRADE

16 de Junho de 2005

O primeiro grande negro da história do futebol mundial seria uruguaio: Andrade. Até 1924, ano em que deslumbrou nos Jogos Olímpicos de Paris, nunca a Europa havia visto um negro a jogar futebol. Poucos dos que viram jogar a Maravilha Negra como lhe chamou então a imprensa gaulesa, estarão hoje vivos, mas para a história fica o registo de um defesa lateral direito, que marcava o extremo e depois, acariciando a bola, subia pelo seu flano com a elegância de um bailarino, driblando num jogo de cintura que parecia dança.

Conta-se que num jogo atravessou meio campo com a bola dominada na cabeça. Quando na postura defensiva, foi o inventor da famosa Tijera, o carrinho dos nossos tempos, que naquele tempo era algo nunca visto, sobretudo se executado com a beleza plástica de Andrade. Num tempo em que atravessar o Oceano durava meses, nunca quis sair do Uruguai onde sempre jogou. Depois de abandonar o futebol, descobriram-no mais tarde em París, onde alternava uma vida de boémia com a de artista de variedades, no qual era exímio bailarino! Tinha o sonho de conhecer Josephine Baker, mito da belle époque, mas nas noites de París, o seu corpo moreno e musculado, em 1,80 m. e 80 kilos, tornou-se desejado por muitas mulheres, da mais fina sociedade.

andradeConta Romano, seu amigo e antigo jogador, que uma vez foi procurá-lo a Paris na morada que ele antes lhe fornecera. Quando lá chegou, deparou-se com um fabuloso apartamento. Pensou: Devo ter-me enganado. Mesmo assim, tocou na campainha, surgindo uma bela donzela que só falava francês e do que Romano lhe disse só percebera a mágica frase: mesié Andrade.

E eis que a Maravilha Negra surge vestindo um longo kimono de seda, por ente uma luxuosa habitação decorada por peles, estatuetas em ouro, cheiro a perfume caro e abat-jours milionários. Andrade era, no entanto, um homem impossível de prender. O amor das mulheres, para ele, ia e vinha em cada noite. Anos depois, regressaria à sua Montevideo, onde acabaria por morrer, só, em 1957, na mais profunda miséria, mas sem nunca pedir nada, nem esperar que o auxiliassem. Mas, como escreveu Eduardo Galleano, em Futbol a sol y sombra já ficara gravado o epitáfio que foi negro, sul americano e pobre, o primeiro ídolo internacional do mundo do futebol. Como diria Julio César Pupo, há algo de admirável e grande em tudo isto. Algo admiravelmente dramático nesta vida original que se levantou desde um terra com cheiro a cão, até aos lábios perfumados das mais finíssimas parisienses, para ser, depois, devolvido, ás ruas, mais pobre e abandonado que antes. Há até poesia. Há, sim. Poesia que é letra de tango.

CARREIRA

  • Misiones.
  • Bellavista.
  • Nacional de Montevideo, 1924 a 1930.
  • Peñarol de Montevideo, 1931 a 1932.
  • Montevideo Wanderers, 1932

TITULOS

  • Campeão Olímpico (Uruguay, 1924 e 1928).
  • Campeão do Mundo 1930.
  • Campeão sul americano em 1923 e 1926.
  • Campeón Uruguaio com o Peñarol, 1932