BEST, O «Génio louco de Belfast» (1946-2005)

23 de Novembro de 2005

Desde o inicio do mundo, existe o mito da loucura como origem da genialidade. Para muitos é nesse ponto prévio que se encontra o sublime segredo da criação artística. Ao longo dos tempos, o mundo do futebol confirmou essa teoria. Muitas vezes, no entanto, os dois estados confundiram-se e a arte ficou refém dos desvarios da mente lunática. Na história do futebol, há jogadores que, mesmo com o passar dos anos, permanecem na nossa memória num lugar especial. Para os mais românticos, um desses casos chama-se George Best. Ironicamente, também foi, ao mesmo tempo, uma daquelas perturbantes personagens, génios loucos, que habitaram o século do futebol.

A história da sua descoberta, talvez por ser tão romanticamente simples, é das mais fascinantes para os velhos amantes da bola. Resume-se a um simples telegrama, enviado por Bob Bishop, caça-talentos do Manchester United na Irlanda do Norte, para Matt Busby: “Dear Sir STOP I found a Genious STOP”, ou seja, “Caro Senhor, STOP encontrei um génio! STOP”.

Em 1962, data em que Best chegou, com 16 anos, a Manchester, não existiam os modernos sistemas de treino e captação de talentos de hoje em dia. Nos primeiros anos, franzino e com pernas de alicate, ficou, como todos os outros aprendizes, com a missão de limpar as botas de um jogador da equipa principal. A ele, coube as de Alex Dawson e do guarda redes Harry Gregg, então com uma aura mítica, pois todos o viam como o herói que, em 1958, na tragédia de Munique, salvara a vida de alguns tripulantes do avião que se despenhara vitimando a maioria da lendária equipa dos Busby Babes. Em pouco tempo, porém, o "litle boy" de Belfast começaria a dar nas vistas. Com um jogo de cintura estonteante, driblando como um fantasma, tornou-se uma grande estrela. Perfil de génio, no relvado, o chamado quinto Beatle, fora dele.

Um rebelde sem causa BEST O Génio louco de Belfast 1946 2005que acabaria traído pela outra mulher, o álcool, como lhe chama na sua sublime autobiografia "Blessed", Abençoado, onde também conta, entre outros relatos fascinantes, que, nos primeiros tempos, quando estava á espera do autocarro para os treinos, chegava a esconder-se sempre que via passar, ao volante do seu Jaguar, Matt Busby, que viva perto dele e fazia o mesmo trajecto para o estádio, só como medo que ele lhe oferecesse boleia. O que diria ao lado dele? Até que um dia, Busby viu-o e mandou- entrar: "Anda dai, rapaz, eu levo-te". Best ficou toda a viagem mudo, pálido de respeito a olhar para tão imperial personalidade. Neste respeito reverencial estava implícito, porém, a consciência de saber quanto custa chegar até onde as estrelas moram.

Em 1968, quando venceu a Bola de Ouro de melhor jogador europeu do ano, Best tinha apenas 22 anos e o mundo a seus pés. Hoje, quase mais de 30 anos passados sobre esses tempos de loucura, olha para trás e recorda pensativo um episódio que na época o deixara confuso: “Estávamos no inicio dos anos 70 e eu vivia o auge da minha carreira. Tinha o mundo a meus pés. Um dia, depois de uma noite de loucura num casino, regressava ao hotel já perto das quatro da manhã, ainda de garrafa na mão, bem bebido, acompanhado por uma mulher deslumbrante, Miss Mundo, e com os bolsos cheios de dinheiro que ganhara no jogo. Antes de subir para o quarto pedi outra garrafa de Don Perrignon.

Estava a tirar a roupa quando entrou o “roomservice”. Era um rapaz novo, com sotaque irlandês. Entrou, pousou a garrafa, olhou á volta, viu a mulher belíssima deitada nua na cama, a mesa coberta de dinheiro que entretanto espalhara e o meu ar eufórico. Dei-lhe uma gorjeta que seria mais do que ele ganharia num mês ou dois. Preparava-se para sair, quando parou e disse-me: -“Mr. Best, posso fazer-lhe uma pergunta?” -“Claro”- respondi. -“Quando é que exactamente as coisas lhe começaram a correr mal?”»

Com a camisola BEST O Génio louco de Belfast 1946 20051do Manchester United, Best seduziu o mundo com o seu estilo elegante, típico de uma estrela pop que nos relvados se traduzia num mágico controle de bola, um jogo de cintura elástico, aliado a uma impetuosa mudança de velocidade. Filho dos anos 60, ele era, antes do mais, um produto de uma época louca, onde a liberdade se devia exprimir de todas as formas possíveis e imaginárias.

Dono de invulgares dotes para a arte do futebol, o imprevisível irlandês, tornou a sua carreira num vertiginoso “cocktail” de emoções que, depois de deslumbrar os amantes do belo futebol, mergulhou profundamente no fosso do alcoolismo, ao ponto de durante muito tempo caminhar no limite do precipício. Com o tempo foi engordando, deixou crescer uma opulenta barba e perdeu o glamour de antigamente.

Hoje, Best tornou-se uma figura de culto para os filósofos do futebol. Esquecem-se no entanto que, como escreveu Roland Barthes em “Câmara Clara”, o que define as sociedades ditas avançadas é o facto dessas sociedades consumirem hoje imagens e já não crenças como as de outrora. Recentemente, após outra crise que o levou aos ciudados intensivos, Best anunciou colocar á venda os seus trofeus do tempo de futebolista. Entre eles estava a Bola de Ouro de melhor jogador europeu de 1968. Como diria Rudyard Kipling: “o êxito e o fracasso são dois grandes impostores”

  • Man Utd 1963-73: 466 games 178 goals
  • Stockport County 1975: 3 games 2 goals
  • Cork Celtic 1975-76: 3 games 0 goals
  • LA Aztecs 1976: 24 games 15 goals
  • Fulham 1976-77: 37 games 8 goals
  • LA Aztecs 1977: 25 games 13 goals
  • Fulham 1977: 10 games 2 goals
  • LA Aztecs 1978: 12 games 1 goal
  • Fort Lauderdale 1979: 14 games 5 goals
  • Hibernian 1979-80: 16 games 3 goals
  • Fort Lauderdale 1980: 19 games 2 goals
  • Hibernian 1980: 6 games 0 goals
  • San Jose 1981-82: 56 games 21 goals
  • AFC Bournemouth 1983: 5 games 0 goals
  • Brisbane Lions 1983: 4 games 0 goals