CHILAVERT E OS “LOCOS LATINOS”

27 de Março de 1999

O olhar sombrio de Chilavert, com o eco dos aplausos como “cenário de fundo” vislumbra, a cada passo, a posse da bola, símbolo do seu império. Ele personifica no presente o estilo impressionista dos locos latinos, na senda do argentino Hugo Gatti que durante os anos 60 a 80, revolucionou o posto ao criar o guarda-redes libero, saindo a jogar fora dos postes para lançar o contra ataque. Gatti jogou até aos 42 anos e deixou um legado de loucura que, oscilando entre o exótico e o genial, inspirou uma galeria de arqueros locos.

No trilho de Gatti, surgiu Quiroga, o polémico peruano, de origem argentina, famoso pelas suas piruetas e pelos seis suspeitos golos que sofreu frente á Argentina no Mundial 78, onde Fillol sagrou-se campeão do mundo. Com um ego do tamanho do mundo esta classe de guarda-redes joga sem qualquer espécie de medo. Sem medo de falhar, sem medo das consequências, da ira dos adeptos ou do treinador. Se falharem encolhem os ombros, barafustam com todos e consigo próprios e tentam de novo.
No mesmo estilo o mundo alucinou com o colombiano Higuita, autor no Wembley do célebre golpe do escorpião:”Quando acabar a minha carreira, o meu nome ficará na memória das pessoas como um jogador que trouxe um pouco de magia ao jogo e á vida de pessoas comuns”. No presente, joga em Espanha, no Mérida, El mono Navarro Montoya, ex-Boca Juniores que enquanto esteve na Argentina protagonizou explosivos duelos com Chilavert. O mexicano Jorge Campos é um caso especial. Distingue-se pelas suas florescentes camisolas coloridas, que ele próprio desenha, e pelos seus movimentos de libero, como é capaz de deixar a baliza para jogar a avançado-centro.

CHILAVERT E OS LOCOS LATINOSMas o loco do momento é José Luis Chilavert. O Paraguay nunca foi uma terra de grandes jogadores. Entre os seus 3 milhões de habitantes poucos atravessaram as fronteiras da celebridade. O escritor Augusto Bastos e a dançarina Eliana Rodas acariciaram a fama. No futebol, Arsenio Erico foi uma lenda nos anos 30 e Romerito, nos anos 80, chegou a jogar no Barcelona, mas nenhum atingiu a incrivel reputação de Chilavert, o guarda-redes goleador, marcador de livres e penaltys, o líder da selecção paraguaia que se prepara para atacar o Mundial de França. Joga no Velez Sarsfield, na Argentina, onde sucedem-se os processos disciplinares devido a problemas causados durante os jogos. Esteve alguns meses suspenso mas jura nunca ir mudar de atitude: “A minha arrogância protege-me”. Nas eliminatórias para o Mundial cometeu a proeza de marcar um golo, de livre directo, á Argentina, em Buenos Aires. No jogo seguinte, contra a Colômbia, foi expulso e agrediu a murro Asprilla. Em qualquer das situações, é um provocador nato que com os seus jogos de luz e sombra cativa a paixão das multidões que em delírio seguem os partidos do Paraguai.

“Chila” nasceu em Luque, uma pequena vila perto da capital Assunção. Antes de chegar ao futebol argentino esteve em Espanha, no Saragoça de Antic. Estávamos em 88, mas apenas dois anos depois regressou ás pampas, para, sob a orientação técnica de Carlos Bianchi, levar, com a sua atitude excêntrica de macho latino das balizas, o Velez a 3 vitórias na Liga argentina, o último titulo era de 68, e á conquista da mítica Copa Libertadores. Agora é tempo de procurar a imortalidade no França 98, apesar da sua irreverência não se esgotar nos relvados.

Quando terminar a carreira pensa realizar as suas ambições políticas, por onde não se inibe de fazer algumas polémicas incursões, como criticando o presidente Juan Walmosy:“Quero lavar a imagem do Paraguai, reduzir o budget militar e aumentar o da saúde e da educação. Mas a política só daqui a 10 anos. Quero jogar até aos 40 anos, como o meu ídolo, Zoff” . Chilavert, mais do que um simples loco latino.

CHILAVERT - CARREIRA

ÉPOCA - CLUBE - JOGOS

  • 1984/'85 San Lorenzo (Arg ) 10
  • 1985/'86 San Lorenzo (Arg ) 38
  • 1986/'87 San Lorenzo (Arg ) 31
  • 1987/'88 San Lorenzo (Arg ) 43
  • 1988/'89 Real Zaragoza (Spa ) 37
  • 1989/'90 Real Zaragoza (Spa ) 34
  • 1990/'91 Real Zaragoza (Spa ) 8
  • 1991/'92 Vélez Sársfield (Arg ) 22
  • 1992/'93 Vélez Sársfield (Arg ) 30
  • 1993/'94 Vélez Sársfield (Arg ) 23
  • 1994/'95 Vélez Sársfield (Arg ) 34
  • 1995/'96 Vélez Sársfield (Arg ) 34
  • 1996/'97 Vélez Sársfield (Arg ) 24
  • 1997/'98 Vélez Sársfield (Arg ) 35
  • 1998/'99 Vélez Sársfield (Arg1) 28
  • 1999/2000 Vélez Sársfield (Arg1) 32
  • 2000/2001 Vélez Sársfield (Arg1) 8
  • 2000/2001 RC Strasbourg (Fra1) 17
  • 2001/2002 RC Strasbourg (Fra2) 33
  • Sportivo Luqueño, 1981 a 1983.
  • Guarani, 1984/85.
  • San Lorenzo, 1985 a 1988.
  • Real Zaragoza, 1988 a 1991.
  • Velez Sarsfield, 1991 a 2000.
  • RC Estrasburgo, 2000 a 2002.
  • Peñarol, 2003/??.

 

TITULOS

  • Campeão com o Sportivo Luqueño (inferiores) – 1980.
  • Campeão estadual com o Guarani – 1985.
  • Campeão argentino com o Velez Sarsfield de Argentina (1993, 1996, 1998).
  • 1 Copa Libertadores com o Velez Sarsfield(1994).
  • 1 Taça Intercontinental com o Velez Sarsfield (1994).
  • 1 Copa InterAmericana com o Velez Sarsfield (1995).
  • 1 SuperCopa com o Velez Sarsfield (1996). Campeão da II Divisão francesa de Francia con RC Strasburgo (2001). Com o Velez jugou 262 jogos e marcou 22 golos. O único guarda redes que marcou 3 golos num só jogo (Velez 6-1 Ferrocaril). Fez o melhor golo do campeonato Argentino(desde o meio campo), em 1996. Com o Velez jugou 262 jogos e marcou 22 golos.