CRUYFF

16 de Junho de 2005

A década de 50 caminhava lenta. Em Betondorp, num pobre subúrbio de Amesterdão, perto do estádio do Ajax, o velho De Meer, (o lago, em holandês), nome que se deve a ter sido construído sob um lago seco desde o Séc.XVIII, vivia então um jovem traquinas que, com a mãe a trabalhar como emprega de limpeza dos balneários do Ajax, passava o dia nas ruas, perto da barraca de frutas e vegetais e seu pai, aos pontapés a todos os objectos semelhantes a uma bola.

Era um menino magro e franzino chamado Joahn Cruyff. Quando tinha doze anos, o seu pequeno mundo sofreu um abalo, com a morte de seu pai, vitima de um ataque do coração. Foi então que a sua mãe, preocupada a por ele passar todo o dia na rua, sem destino, pediu ao técnico das camadas jovens do clube para o acolher nas suas escolas. Nesse tempo, não passava de um monte de ossos. Com o tempo foi crescendo, e sob a orientação do Mister Jany van der Veen, transformou-se, com o seu talento inato, num futebolista inteligente e habilidoso. Em 1965 com 17 anos, nos últimos dias de Vic Buckingham como treinador do clube, Johan Cruyff estreou-se na primeira equipa do Ajax. A partir de final de 1966, os dois homens que iriam revolucionar o Ajax e todo o futebol holandês, Rinus Michels e Joahn Cruyff, estavam reunidos no laboratório do De Meer. Juntos, um no banco e outro no relvado, iriam tornar o Ajax um gigante do futebol europeu, revolucionar a abordagem táctica do jogo e criar o famoso Futebol Total.

Para simbolizar o Futebol Total um futebolista Total: Johan Cruyff, a Holanda com duas pernas. Um líder por natureza. Quando jogava parecia dirigir tudo: a equipa, os companheiros, o ritmo de jogo, até o árbitro e o vendedor de gelados. Quando havia uma falta, agarrava a bola e passeava com ela debaixo do braço, ante o respeito de todos. Falava, gesticulava, até ao momento em que, tudo normalizado, voltava a colocá-la na relva e o jogo só recomeçava quando ele o entendia. Foi um génio dos relvados, ao nível de Péle e Di Stefano. Tinha a mesma força física e mental destes dois monstros sul americanos, mas só ele a manteve a um nível tão alto de uma área á outra. Dribles secos e mudanças de velocidade estonteantes. Conduzia a bola como o estilo sumptuoso de quem se sentia dono do mundo.

Em 1973, seguiu Michels e rumou para Barcelona. Regressou em 1981, depois de uma aventura americana. Em todos os locais, o seu futebol manteve sempre os mesmos traços artísticos e criativos, misto de Van Gogh e Rembrandt dos relvados. Um imortal. Para a lenda ficou o seu nº14, com que sempre exigiu jogar, desde o dia em que, ainda menino, com ... 14 anos, ganhou a sua primeira Taça pelas equipas jovens do Ajax. Foi por três vezes, 71, 73 e 74, eleito Bola de Ouro de melhor jogador europeu do ano. Para Stefan Kovacs, o segredo de Cruyff estava em que ele amava o futebol. Todos os dias buscava novos meios de tentar atingir a perfeição. Apenas faltou o titulo mundial, com a Laranja Mecãnica em 1974, para a consagração plena, mas, como ele próprio confessa: Já perguntei muitas vezes se trocaria os elogios que recebemos pelo titulo em si mesmo. Sinceramente, não creio que trocaria. Claro que gostaria de o ter ganho, mas hoje, tantos anos passados, ainda se fala mais da nossa selecção do que dos verdadeiros campeões do mundo.

CRUYFF1Em 1981, com 34 anos, Cruyff regressou do futebol americano e sentiu que podia jogar mais uns anos. O Ajax recebeu-o de braços abertos, oferecendo-lhe um contrato razoável e uma percentagem na receita dos jogos em casa. Com o De Mer quase sempre cheio, Cruyff correspondeu. Ganhou o Campeonato, a Taça, e foi eleito jogador do ano. Na época seguinte, porém, quando pediu uma melhoria no contrato, o Ajax, incrivelmente, disse não ser possível Revoltado, Cruyff sentiu-se magoado e assinou pelo grande rival: o Feyenoord, que já não era campeão desde 1974, há nove anos. Assim, em 83/84, o mago holandês jogou em Roterdão e, claro, ganhou tudo. Campeonato, Taça e, mais uma vez, foi eleito, sempre com o nº14 nas costas, o jogador do ano. No final da época, com o ego do tamanho do mundo, abandonou Rotedão e encerrou a carreira. No relvado do The Kuipt ficara o último aroma do seu futebol.

CRUYFF2Era comum dizer-se que o Ajax jogava com dois treinadores. Um no banco, outro, no relvado: Cruyff, pois claro. Depois de pendurar as botas, o mago de Betendorp encetou uma nova carreira, como treinador, por entre alguma controvérsia motivada pelo facto de não ter qualquer credencial para o efeito.

Era, no entanto, uma questão de pura vocação que já emergira enquanto era jogador, como em 1981, quando num jogo em casa com o Twente, em que estava na bancada, por estar lesionado, e o Ajax ia perdendo. Foi então que decidiu descer ao relvado e sentar-se ao lado de Beenhaker, o técnico na época. Cruyff tomou o comando, gritou para dentro do relvado e o Ajax acabou por ganhar o jogo. Era o inicio da sua carreira como treinador. Hoje, renegando desde 199x o tormento dos bancos, tornou-se um senador do belo futebol, um tribuno sobre cujos temas buscamos saber a opinião. Ele tem dentro de si, a tal pedra filosofal do mais evoluído futebol de sempre

CARREIRA

Como jogador:

ÉPOCA - CLUBE - JOGOS - GOLOS

  • 1964/'65 Ajax (Ned1) 10- 4
  • 1965/'66 Ajax (Ned1) 19 -16
  • 1966/'67 Ajax (Ned1) 30- 33
  • 1967/'68 Ajax (Ned1) 33- 27
  • 1968/'69 Ajax (Ned1) 29- 24
  • 1969/'70 Ajax (Ned1) 33 -23
  • 1970/'71 Ajax (Ned1) 25- 21
  • 1971/'72 Ajax (Ned1) 32 -24
  • 1972/'73 Ajax (Ned1) 2-6 16
  • 1973/'74 Ajax (Ned1) 2 -3
  • 1973/'74 Barcelona (Spa1) 26- 16
  • 1974/'75 Barcelona (Spa1) 30- 7
  • 1975/'76 Barcelona (Spa1) 29- 6
  • 1976/'77 Barcelona (Spa1) 30 -14
  • 1977/'78 Barcelona (Spa1) 28- 5
  • 1979 LA Aztecs (NAm1) 27- 16
  • 1980 Washington Diplomats (NAm1) 27 -10
  • 1980/'81 Levante (Spa2) 10 - 2
  • 1981 Washington Diplomats (NAm1) 5- 2
  • 1981/'82 Ajax (Ned1) 15 -7
  • 1982/'83 Ajax (Ned1) 2-1 7
  • 1983/'84 Feyenoord (Ned1)

33 TITULOS

  • Como jogador: 9 Ligas da Holanda (66, 67, 68, 70, 72, 73, 82, 83, 84)
  • 5 Taças da Holanda (67, 70, 72, 83, 84)
  • 3 Taças dos Campeões (Ajax, 71, 72, 73)
  • 1 SuperTaça Europeia. 1973 1 Liga espanhola - (Barcelona- 1974)
  • 1 Taça de Espanha (1978)
  • 3 BOLAS DE OURO- Melhor jogador europeu do ano (1971, 1973, 1974)

Como treinador

  • 1 Taça da Holanda (1986, 87)
  • 2 Taça das Taças (Ajax, 87, Barcelona, 89)
  • 1 Taça de Espanha (1990)
  • 4 Ligas espanholas (1991,92,93,94)
  • 1 Liga dos Campeões (1992)
  • 1 SuperTça Europeia (1992)