DI STEFANO

16 de Junho de 2005

A sociedade muda, o ritmo acelera, a pureza distancia-se e o futebol passa para os centros financeiros, mas permanece igual a parábola das estrelas, embora repouse cada vez mais distante a memória de Di Stefano, quando “ninguém era obrigado a jogar futebol. Jogávamos porque gostávamos e, como o fazíamos tão bem, acabaram por nos pagar para o fazer.” Filho de imigrantes italianos, Alfredo Di Stefano, nasceu num popular bairro de Buenos Aires chamado Barracas, ao lado de La Boca, no seio de uma família humilde, em 1926. Passava dias a jogar na rua com bolas de trapos velhos, feitas com papel e meias que roubava á mãe ou ás irmãs.

Chamava-lhe Minelita, por, diz-se, por ser nessa altura muito parecido com Minela, um jogador do River Plate. Aos 12 anos, mudou-se com a familia para uma casita melhor, no bairro Flores. Foi então quando uma manhã, com a casa em obras, apareceu por lá um electricista amigo de seu pai, que tinha conhecimentos no River Plate. Sabendo disso a mãe do pibe Alfredo pediu-lhe então para ver se o levava lá para fazer uns treinos, a ver se tinha jeito. Assim foi, Duas ou três semanas chamaram-no e ele lá foi para tentar mostrar as suas habilidades na cancha que enlouquecia as margem do Mar del Plata.

di stefanoNessa altura, já jogava nas equipas jovens do modesto Los Cardenales. Quando espantados com o seu fulgor, foi descoberto pelo River Plate, tinha já 15. Um ano depois já estava na sua famosa equipa dos anos 40, “La Maquina”, jogando como médio direito, e não como avançado centro como ficou célebre. Como era muito novo foi emprestado ao Huracan para rodar, mas quando defrontou o River, entrou com tal raiva, que fez o golo da vitória logo aos...15 segundos! Não tardou em regressar e ao lado dos míticos Labruna e Pedernera construiu a “nova máquina”, onde começou a ser conhecido, tal era a sua velocidade, como “La Sieta Rúbia”! Para trás ficava a bola de trapos. No seu futuro estavam milhares de pessoas a abarrotar estádios, na Europa, só para o ver jogar com a camisola do Real Madrid, antes dele um clube que “não ganhava a ninguém”.

di stefano1É por esta altura que começa a escrever-se, na altiva Castela, a mais sumptuosa história de um clube de futebol: o Real Madrid. Como os búzios trazem dentro de si o ruído do mar, há equipas e jogadores que, pintados a preto e branco, moram na nossa memória com a dimensão dos mitos. São gigantes eternos. O Real Madrid dos anos 50, obra de Santiago Bernabéu, no gabinete, e de Di Stefano, no relvado, atravessou o tempo e moldou, para sempre, a imperial imagem do monstro branco espanhol. A meio do século, o futebol ainda respirava uma época de profunda timidez. Cada país vivia imóvel nas suas fronteiras, e as referências ao que se passava noutras nações, onde se dizia morarem jogadores fabulosos, eram sempre envoltas num clima de mistério e grande curiosidade. Um desses magos que se dizia habitar o novo mundo era o argentino Di Stefano, então a jogar, como muitos outros grandes jogadores argentinos nesse tempo, na Colômbia, no Milionários de Bogotá. Mais ou menos por essa altura, o Real Madrid comemorava o seu cinquentenário. Para tal, organizou-se um torneio internacional convidando o Milionários de Bogotá, dono de uma equipa fantástica, o Bailado Azul. Foi então que, frente ao Real e perante o público madrileno, os Milionários deram um festival de futebol. Nessa tarde, Di Stefano esteve endiabrado: fez dois golos e comandou toda a equipa. Um maestro com uma varinha mágica, cada vez que tocava na bola tudo à sua volta ficava suspenso, hipnotizado pela sua técnica, velocidade e visão de jogo. Nunca na Europa tinha sido visto algo igual. Don Santiago, deslumbrado, não hesitou.

Esses músicos colombianos tinham-lhe estragado a festa, mas, naquela altura, já só tinha uma ideia: Quiero el r
ubio! Quiero que me fichen el rubio! O resto faz parte da lenda de Di Stefano no Real Madrid, ao ponto de hoje muitos o qualificarem o único futebolista herói de dois mundos. Também o Barcelona se interessou por ele, tentando-o negociar com o River Plate, o único clube com quem, segundo a FIFA, o jogador tinha contrato. Ao invés, o Real contactou o Milionários. Estava a situação num impasse quando a Federação Espanhola teve de decidir. Di Stefano ia para o Barça ou para o Real, qual o acordo válido? A decisão foi o mais salomónica possível. O contrato era de cinco anos, Di Stefano iria cumprir, alternadamente, um ano em cada clube! Revoltado e decepcionado com essa decisão, o Barcelona, por quem o Di Stefano já tinha feito três jogos, decidiu desistir do jogador, que, assim, pôde rumar para a “casa branca”, onde Santiago Bernabéu o esperava de braços abertos.

di stefano3Desta forma a Argentina perderia para Espanha, aquele que poderia ter sido o maior jogador mundial de todos os tempos. Quando partiu, Di Stefano tinha a intenção de ficar só quatro ou cinco anos. Hoje, já passaram mais de quarenta e cinco e a Saeta Rúbia continua em terras de D.Quixote, dividindo a sua nacionalidade futebolística entre Argentina, Colômbia e Espanha. Apesar de toda a sua categoria, nunca chegaria, no entanto, a jogar um Mundial. Em 1950, quando estava na Argentina, o pais das pampas recusou comparecer no Brasil. Quatro anos depois, em 1954, já em Espanha deparou-se com a recusa da FIFA em que fizesse parte do onze espanhol, porque antes já tinha jogado por Argentina e Colômbia. Só em 1956, a FIFA reconsideraria esta posição e abriu aos jogadores a possibilidade de jogarem por diferentes selecções ao longo da carreira. Em 1958, depois de ter-se estreado um ano antes, em 1957, com 31 anos, na selecção espanhola, sofreria as consequências do não apuramento da Espanha para o Mundial da Suécia. Quando, por fim, em 1962, surgiu, já com 36 anos, a possibilidade de jogar um Mundial, no Chile, sofreu uma lesão que o impediria de alinhar em qualquer jogo, embora tenha feito a viajem convocado pelo seleccionador espanhol da época, Helénio Herrera.

Em 1966, com 40 anos, já não podia sonhar com tais voos e assim o melhor jogador do mundo da década de 50, nunca jogaria a fase final de um Campeonato do Mundo de futebol. Acabaria, no entanto, por regressar ao River Plate, como treinador, em 1981, substituindo Labruna, sagrando-se, no banco, campeão argentino. Quando decidiu terminar a carreira, olhou para a bola, instrumento da sua arte, e agradeceu-lhe tudo o ela lhe tinha dado durante toda a vida. Em sinal de agradecimento, colocou no centro de jardim de sua casa, uma bola em estatueta, escrevendo singelamente: «Gracias Vieja!»