EUSÉBIO

16 de Junho de 2005

Parecem cada vez mais a preto e branco na nossa memória as recordações dos anos 60. No palco de Londres brilhava então, Eusébio. Vivia-se, ao tempo, uma era ímpar na concepção futebolística lusa. Na companhia de Mário Coluna, José Augusto e José Torres, entre outros, os Magriços conquistavam a imortalidade. Esta referência á fábula mundialista da pantera negra é, no entanto, apenas um esboço de um longo trajecto de uma carreira sempre tangente aos mais importantes feitos do futebol português. No provinciano Portugal de Salazar, no entanto, a década dos Beatles limitou-se a fazer cócegas no regime e nunca pareceu capaz de lhe decisivamente abalar as estruturas. No inicio da campanha para o Chile, em 1961, Eusébio ainda era um desconhecido. Pouco tempo depois começaria a treinar na Luz. Quando Bela Guttman viu pela primeira vez os seu toques mágicos e movimentos felinos, virou-se de imediato para o lado e disse ao adjunto Caíado: “É ouro, Caíado! Encontrámos ouro, Caíado!”. Pouco depois, os titulares Torres e José Augusto já discutiam qual deles havia de sair para o miúdo jogar.

Porque é que o tempo passa tão depressa? Porque é que as emoções que ainda fervem nos nossos corações com uma intensidade crepitante, já não são mais do que meras e distantes recordações de tempos já remotos? É humano querer domar o tempo. É genuinamente português sentir Saudade. A única língua onde essa bonita, romântica e sofrida palavra existe, porque significa muito mais do que simples nostalgia. Significa o incontrolavel desejo de fazer o tempo voltar para trás e recuar até aos revolucionários anos 60, quando o Mundial de futebol chegou a Inglaterra, a pátria do futebol. Aquele jogo outrora inventado numa rica universidade inglesa tinha saído de casa muito novo, irreverente e de pêlo na venta. Cresceu pobre e na rua, onde os miúdos o adoptaram como brincadeira, paixão, amor e, por fim, modo de vida e sentimento patriótico. Muitas décadas depois ele regressou a casa, adulto e senhor do seu nariz, mas, apesar da tropelia do passado, só poderia ser recebido como um filho pródigo. Chegou acompanhado de uma pantera negra, exemplo dos diamantes em bruto que descobriu durante as suas viagens por outros continentes. Os ditames colonialistas da época vestiram esse goleador felino com as destemidas quinas da selecção portuguesas, com as quais, pregadas ao peito, correu pelos relvados de todo o mundo, camisola nº13 ou nº10, gritando bem alto a força da genuína alma lusitana. Quando Eusébio chegou, em 1960, o Benfica tinha ganho 10 campeonatos, tantos como o Sporting. Nos 15 anos em que jogou na Luz, o Benfica conquistou mais 11 e o Sporting apenas 4. O “rei” deixou obra e desiquilibrou a história do futebol português.

EUSEBIO1Desde esse tempo que muitos clubes portugueses procuram descobrir um fenómeno semelhante ao “pantera negra”. A memória retêm nomes como Jordão e Dinis “brinca na areia”. De comum, porém, só a origem. Nunca mais voltará a existir outro Eusébio, como nunca mais haverá outro Péle. A história nunca se repete. Repetida apenas a imagem dos meninos da rua a jogar, por entre poeira de areia, nas clareiras de terra queimada pelo sol, ou em espaços nostálgicos sob a sombra de uma secular palmeira vergada.

A grande explosão de Eusébio sucederia em 1962, no clima histórico de Amesterdão, quando assombrado o Velho Continente descobriu o perfume africano de Eusébio, que, com a camisola do Benfica, derrubou o aroma hispano-argentino da Saeta Rúbia, Di Stefano, monstro do Real Madrid. Nesse ano, a Bola de Ouro, seria atribuída ao pequeno fantasista checo Masopust, mas o outrora menino tímido de Lourenço Marques, já conquistara a Europa, abraçando a Bola de Prata. Ironicamente, a consagração dourada de Eusébio surgiria no ano em que o seu Benfica perdeu na Final da Taça dos Campeões.

Foi em 1965, quando um fraco remate de Jaír furou por entre as pernas de Costa Pereira e, no dilúvio do S. Siro, deu a Taça ao Inter de Facchetti e Suarez, segundo e terceiro classificado na edição da Bola de Ouro desse ano. A grande consagração planetária surgiria, porém, no inesquecível Mundia-66. Depois de vencer a Bulgaria por 3-0, veio o jogo com o Brasil de Pelé que para seguir em frente teria de vencer Portugal por mais dois golos de diferença. Otto Glória manteve a mesma equipa e, como disse o saudoso Carlos Pinhão, Portugal encetou “a terrível vingança da bola quadrada”, derrotando os camnpeões o mundo por 3-1, com Eusébio a assinar uma obra de arte que seria o terceiro golo luso, obtido com um pontapé fulminante sem deixar cair a bola no chão. Vitor Santos escreveria então que os portugueses tinham produzido “Futebol Total”. Assim mesmo.

Cinco anos antes da explosão do Ajax de Michels, no jardim lusitano já houvera quem utilizasse, antes do tempo, essa expressão para definir um tipo de jogo onde todos defendiam na hora de defender e todos atacavam na hora de atacar. Seguiu-se o incrível e inesquecível jogo com a Coreia do Norte que vinha de eliminar a Itália e que nos primeiros 25 minutos do jogo com Portugal chega, facilmente, a 3-0. Tudo parece perdido. Com a indomável força de quem descobriu mundos e desbravou novos caminhos, o onze português, guiado pela aura africana de Eusébio, daria sensacionalmente a volta ao resultado: 5-3! O mundo do futebol descobria um novo rei, como escreveu o Daily Mail: “Imperador Eusébio. Fausto e pompa na marcação de quatro golos”

Quando Eusébio chegou, em 1960, o Benfica tinha ganho 10 campeonatos, tantos como o Sporting. Nos 15 anos em que jogou na Luz, o Benfica conquistou mais 11 e o Sporting apenas 4. O “rei” deixou obra e desiquilibrou a história do futebol português. A 13 De Outubro de 1973, em Lisboa, contra Bulgária, empate a duas bolas, Eusébio faria o ultimo jogo com a camisola de Portugal. Era o fim do ciclo da pantera. Em 64 jogos pela selecção marcara 41 golos e foi o melhor marcador do Mundial de 1966, com 9. Desde esse tempo que muitos clubes portugueses procuram descobrir um fenómeno semelhante ao “pantera negra”. A memória retêm nomes como Jordão e Dinis “brinca na areia”. De comum, porém, só a origem. Nunca mais voltará a existir outro Eusébio, como nunca mais haverá outro Péle. A história nunca se repete. Repetida apenas a imagem dos meninos da rua a jogar, por entre poeira de areia, nas clareiras de terra queimada pelo sol, ou em espaços nostálgicos sob a sombra de uma secular palmeira vergada.

EUSEBIO3Na meia final, na catedral de Wembley, frente á Inglaterra, Portugal perdeu 2-1 num jogo em que os portugueses, como diria Simões, “suaram o suor que já não tinham para suar”. Nas lágrimas de Eusébio a abandonar o relvado estava a imagem de todo um povo que num ápice, durante um mês, devolvido á vida, se voltara a sentir capaz de conquistar o mundo. Uma foto que correu mundo e que foi capa do Daly Telegraph no dia seguinte ao jogo, preferida em vez dos saltos de alegria de Bobby Charlton. Nessa imagem estava condensada toda a incomensurável magia do futebol e, depois, afinal, uma pantera também chora. Restou o terceiro lugar, conquistado após vencer a URSS de Yashine por 2-1.

Durante quase meio século o Antigo Regime foi todos os anos hipnotizando o povo lusitano com uma peregrinação a Fátima, em Maio, umas casas de Fado e o inevitável futebol ao domingo. Eusébio conta com mágoa a sua conversa com Salazer que e plenos anos 60 não permitiria em nome dos superiores interesses da pátria que a pantera, extensão futebolística de um Império Ultramarino, saísse do Benfica e abandonasse o país para ir jogar em Itália. Eusébio era, dizia, património nacional, pelo que seria impossível a sua saída.

É impossível dissociar a era dourada do futebol português dos anos 60 da influência do jogador ultramarino em todos os gloriosos movimentos da bola lusa durante esse período, onde a colonização futebolística dos nossos tesouros africanos fez do futebol lusitano um dos melhores de todo o mundo. Durante a década a selecção nacional chegou mesmo a alinhar com dez jogadores vindos do ultramar e só da metrópole.

Em 1961, com Peyroteo como seleccionador, quando Portugal foi jogar a Inglaterra um jogo de apuramento para o Mundial-62, no onze inicial apenas um jogador era nascido no continente português: Cávem, de Vila Real de Santo António. Entre os outros, um vinha das ilhas, o açoriano Mário Lino, outro era luso brasileiro, Lúcio, enquanto os restantes nove eram provenientes do ultramar: Seis moçambicanos: Costa Pereira, Hilário, Pérides, Vicente, Eusébio, Coluna, e dois angolanos. Yauca e Águas. Vivia-se o tempo da sublimação do pensamento ultramarino, um Portugal do Minho até Timor. Tal situação resultava de uma importação maciça feita pelo clubes portugueses, a partir sobretudo de 55/56, data da Lei que lhes conhecia igualdade de direitos aos jogadores lusos. Quase todos eles vinham rotulados de craques, pois, indicados por observadores dos nossos clubes, tinham sempre como principal requisito a sua boa execução técnica, como diria Mestre Vitor Santos, típica da raça negra, que tem na pele a viveza e a sagacidade do homem do mato, que o perigo espreita por trás de cada arbusto.

Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo-
só palavra
Abstracção
ponto no espaço
teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.

Manuel Alegre, sobre Eusébio

CARREIRA

TITULOS

  • 11 Campeonatos portugueses no Benfica, 60/61, 62/63, 63/64, 64/65, 66/67, 67/68, 68/69, 70/71, 71/72, 72/73 e 74/75.
  • 1 Taça dos Campeões, 1962.
  • 4 Taças de Portugal , 61/62, 63/64, 68/69 e 71/72
  • 1 Campeonato norteamericano com o Toronto em 1976.
  • 1 Campeonato méxicano com Monterrey, 1976.
  • BOLA DE OURO - Melhor jogador europeu do ano , 1965.
  • 2 Botas de Ouro, 1968 com 42 golos e 1973 com 40 golos.
  • 7 vezes melhor marcador do Campeonato nacional:
  • 1963/64 com 28 goles, 1964/65 com 28, 1965/66 com 25, 1966/67 com 31,
    1967/68 com 42, 1969/70 com 20 e 1972/73 com 40 golos.