GARRINCHA

16 de Maio de 2005

“Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irónico e farsante, e Garrincha foi um dos seus delegados incumbidos de zombar de tudo e todos, nos Estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.” Carlos Drumond de Andrade.

Região de Magé, na raiz da serra de Petrópolis, a setenta quilómetros do Rio de Janeiro, decorada por rios e cascatas de uma beleza verde estonteante. Pau Grande. Todos os habitantes da cidade era empregados da fábrica. Pais e filhos. Em 1947, rezam os registos, entrou então com 14 anos recém completados, um novo operário com a categoria de Aprendiz-tirador, de seu nome Manoel dos Santos. Era um garoto moleque com pernas tortas que a vida, o mundo e o futebol eternizariam como Garrincha, nome de um passarinho de floresta pequeno e bravio. Foi ai, nas peladinhas jogadas em cima de um morro íngreme, onde mais grave que fazer um auto golo era chutar a bola morro abaixo, ao lado de seus amigos Swing e Pincel, membros da equipa de rua Vai que é Mole FC que Garrincha começou a revelar-se para o futebol. Daí sairia para o Botafogo, onde se tornaria o Anjo das pernas tortas, como um dia escreveu Vinicius de Morais. Era o desequilibro perfeito a jogar futebol.

Um enigma para muGARRINCHAitos médicos para quem Garrincha nem devia poder andar, quanto mais correr e fintar, como nenhum outro o fez na história do futebol mundial. Os americanos definiram Frank Sinatra como “a voz”. É a definição perfeita para quem cantou o swing com toda aquela alma. A definição certa para Garrincha seria “o drible”. Nelson Rodrigues, perspicaz cronista desportivo brasileiro, viu nele a alegria do povo e perguntou “ se fôssemos 75 milhões de Garrinchas, que país seria este, maior que a Rússia, maior que os Estados Unidos”. Chamaram-lhe a Alegria do Povo. Garrincha era a negação do corpo de atleta. Em bom português, tinha o joelho esquerdo virado para o lado de fora e o direito virado para dentro. Oscar Scaglietti, um célebre médico desse tempo opôs-se ferozmente a que ele fosse operado: “Eu até recomendo uma cirurgia, mas só depois dele abandonar o futebol. Antes isso, tal só poderia comprometer seus dribles maravilhosos”. Para Garrincha, no entanto, tudo isto não lhe suscitava o menor entusiasmo: “Só lendo os jornais é que descobri que tinha as pernas tortas”.

Desde que se estreou no Botafogo, em 1953, marcando três golos contra o velar, até o dia da sua despedida, em 1972, apontou 232 golos em 581 jogos. Com o tempo, ganhara também a fama de ser uma criança grande, uma espécie de génio infantil como lhe chamaria Ruy Castro no seu magistral livro Estrela Solitária. Dele se contam os episódios mais engraçados. Num dos primeiros treinos de Garrincha no Botafogo, o técnico Gentil Cardoso perguntou-lhe: “Você joga de quê, meu filho?”. - “Ué, de chuteiras moço”, respondeu o “Anjo das pernas tortas”. Gargalhada geral. De cara fechada e embatucado, Mané procurou emendar: “Se quiser posso jogar descalço. Não ligo para isso.” Consta também que na Suécia, quando após a final os jogadores brasileiros festejavam exuberantemente a votaria, Garrincha teria perguntado, ao fim de algum tempo, porquê tanta alegria. Disseram-lhe que era por serem campeões do mundo, claro, ao que Mané terá respondido. “Já? mas que torneio mais mixuruco este que nem tem segunda volta. O campeonato paulista é muito melhor!”

GARRINCHA1Noutro deles, á saída de um jogo, Garrincha era abordado por um repórter de rádio que lhe teria pedido duas palavras de despedida ao microfone. Simpático, garrincha teria então dito: “Adeus, microfone!” Muitas destas histórias nunca aconteceram na realidade, mas a verdade é que elas atravessaram o tempo e hoje fazem parte da lenda que envolve a personagem de Garrincha. Uma coisa porém, do que se comentava, era, infelizmente, verdade. Por esta altura, já Garrincha começara a beber muito para além das marcas consideradas aceitáveis. Em 1959, com a carta de condução há pouco tempo, fora a Pau Grande com o seu carro novo e logo á chegada atropelou o seu velho pai Amaro que caiu redondo. Garrincha nem parou, seguiu em frente e quase colhia também outras pessoas que tiveram de saltar fora da estrada para não serem também elas atropeladas por Garrincha. Quando por fim conseguiu travar foi rodeando por montes de pessoas que lhe diziam indignadas: Vocês está louco? Não vai socorrer seu pai? Garrincha não estava louco, estava completamente em embriagado.

GARRINCHA2Quando se aproximou o Mundial de 1966, Garrincha já não era sequer uma sombra do que fora em 1962. A bebida tinha destruído os seus dias e, apesar de continuar a jogar, o seu joelho já mais parecia um bola de futebol de tanto inchar com o esforço, vitima que fora de inúmeras infiltrações para jogar no Botafogo que entretanto o transformaram numa galinha de ovos de outro. O clube cobrava sempre mais pelas digressões que fazia pelo estrangeiro sempre que levava Garrincha. Pouco importava o seu estado, ele tinha de seguir viagem obrigatoriamente. Para isso era injectado. Durante os noventa minutos não sentia a dor, mas findo os jogos, mal conseguia andar. Com o passar dos anos, o problemas de Garrincha com a bebida tinham, no entanto aumentado. Em 1968, com os joelhos estourados de tanta infiltração e com o corpo se desintegrando pelo abuso de bebidas alcoólicas, ainda foi jogar para a Colômbia, no Atlético Barranquilla.

Na esperança de que só o seu nome trouxesse dinheiro, ainda passou pelo Flamengo, Corinthias e Olaria. Tudo passagens fugazes, sem ponta de brilho. No inicio dos anos 70, andou pelo México, e até chegou a jogar num clube amador italiano, o Tor Vajanica. Morreu em 20 de Janeiro de 1983, com xx anos, já mal podendo andar, completamente dependente do álcool. A sua memória permanecerá, eternamente, no coração dos grandes amantes do futebol arte. Não existiu, nem nunca existirá na história do futebol personagem mais romântica, no apogeu e na decadência, definido poeticamente por Armando Nogueira, em “A Flor e a Bola”:

Um dia, um poeta, entreabriu as pétalas de uma rosa Brandamente No intimo da flor, descobriu Um verão inteiro Eu também quis ver a alma de outro desvaneio A bola Despetalei os gomos um por um, encontrei, Um drible de Garrincha.

CARREIRA

  • GARRINCHA3Botafogo, 1953 a 1965.
  • Corinthians, 1965 a 1968.
  • Atlético Junior (Colombia), 1968.
  • Flamengo, 1969.
  • Red Star Paris (Francia), 1971 a 1972.
  • Loaria (Brasil), 1972.
  • BRASIL: 60 jogos e 17 golos. Desses 60 jogos ganhou 57, empatou 2 e só perdeu um.
  • Botafogo: 581 jogos, 232 golos.

TITULOS

  • Campeão do Mundo (Brasil, 1958 e 1962).
  • 3 Campeonatos cariocas com o Botafogo, 1957, 1961 e 1962.
  • 2 Campeonatos Rio-Sao Paulo com o Botafogo, 1962 y 1964
  • Melhor marcador do Mundial do Chile 1962