GUISEPPE MEAZZA

16 de Junho de 2005

Disputada numa época onde a intolerância fascista começava a estrangular o mundo, a final do França-38 arrepiou mais que emocionou. Todos sentiam a totalitária ameaça alemã que cercava o mundo. Na hora da consagração ao receber a taça, o capitão Giuseppe Meazza fez a saudação fascista e um gigantesco calafrio percorreu o corpo do resto da Europa.

GUISEPPE MEAZZANo futebol, como na vida, há histórias que parecem ditadas pelo destino. Como uma parábola, o caminho de Giuseppe Meazza, chefe em campo da squadra azzurra nos gloriosos Mundiais de 34 e 38, simboliza, no corpo e no gesto, a base genética do Calcio. Tudo começou numa tarde de Setembro de 1927, tinha o ragazzo Guiseppe dezassete anos e encontrava-se em Como, com a equipa do Inter, a disputar a Coppa Volta, um torneio onde participavam vários clubes italianos. A prova começara mal para o Inter, perdera o primeiro jogo e ficara sem o avançado centro Castellazzi, lesionado. Era necessário encontrar uma solução para o jogo seguinte. Perto da hora do apito inicial, Poldo Conti, extremo direito da equipa neroazzurra, aproximasse do treinador Veisz e pergunta-lhe: - Mister, perdão, mas quem vai jogar hoje no centro do ataque? - Olha, vai jogar aquele ragazzo lá ao fundo, "Il Peppino", responde o técnico. - Aquele? Mas ele não passa de um "Balilla"!..., afirma admirado Conti.

Nesse tempo, chamava-se "Balilla" aos rapazes que segundo o regimento militar se encontravam catalogados entre os 8 e os 14 anos. Numa época militar, o termo fora adoptado pela linguagem popular. Magro, de olhos esbugalhados, o ragazzo entrou, no entanto, destemido em campo e apontou dois golos. Era o inicio da fabulosa carreira de Guiseppe Meazza, o menino pobre nascido na miséria de Porta Romana, que, após ter começado a carreira no modesto Campionese, equipa de jovens de Via Maestri Campionesi, iria levar a Itália por duas vezes ao titulo mundial. Talento puríssimo, com 18 anos já era titular do Inter, então denominado Ambrosiana.

Sempre com o cabelo coberto de brilhantina, imagem de culto dos galãs dos anos 30, Meazza realizou o seu primeiro jogo na selecção italiana com apenas 19 anos, contra a Suíça, em Roma, num jogo em que cativado pelo seu talento, Pozzo decidira deixar de lado o avançado napolitano Sallustro para apostar no Balilla. Perante os olhares da mamma Ersilia e de toda a familia, primos e amigos, o jovem Meazza realiza um exibição de gala, faz dois golos e guia a Itália á vitória por 4-2.

Avançado centro por natureza no Inter, com Pozzo tornou-se um refinado regista, o clássico nº10 que muitos golos deu a marcar aos dois pontas de lança da squadra azzurra, Schiavio em 34 e Piola em 38. A sua aura na selecção adquiriu tal dimensão que muitos consideravam ser a sua palavra tão importante como as de Vitorio Pozzo, o homem que fez dele o grande capitão da squadra azzurra, mais do que um simples jogador, o seu confidente, o homem em quem podia confiar para, no relvado, guiar a equipa até á vitória e, fora dele, unir e disciplinar o grupo. Apesar destas qualidades futebolísticas, Meazza tinha no entanto fama de bom-vivant. Ficaram célebres as histórias sobre as suas fugas da concentração, para procurar companhias femininas. Dizia-se que Pozzo sabia de tudo, mas, condescendente, fechava os olhos e tudo permitia ao seu Peppino, o outra alcunha por que ficou famoso.

No Mundial. 34, elegante, cultivando um perfil de galã, passeava-se altivo pelos corredores do retiro transalpino. Conta-se que sua influência junto de Pozzo era tal que após eliminar a França nos quartos-de-final, convenceu o velho mestre a permitir que, no dia seguinte, toda a equipa saísse do hotel e, secretamente, fosse passar a tarde nos braços dum grupo de doces raparigas francesas que habitavam a chamada Maison Telier, situada nos arredores do local da concentração. Depois de dar o seu consentimento, Pozzo arrepende-se ao saber dos exageros que, diz-se, os ragazzos teriam cometido. Conta então Giani Brera no seu livro "La Leggenda dei Mondiali" que quando em vésperas da final, após eliminar sensacionalmente o Brasil, Meazza volta a solicitar-lhe outra tarde de evasão, Don Vitorio recusou de imediato. Furioso, Meazza revolta-se e ambos discutem, até que temendo a influência do capitão no grupo, o velho mestre cede, mas só em parte, vira-se para o capitão e diz-lhe: "Nada feito, mas se quiser pode ir você sozinho, eh Pepino?". No dia da final, Meazza realiza uma exibição portentosa. Joga e faz jogar, guiando a squadra azzurra a mais um titulo mundial.

Pelo Selecção, Meazza, fez 53 jogos e apontou 33 golos. A parte final da sua carreira seria, no entanto, martirizada por uma grave lesão no pé esquerdo, um embolo que impedia o sangue de circular. Era chamada lesão do pé gelado. Estávamos em 1939. É operado para tentar a recuperação, ficava longos meses sem jogar e o Inter considera-o acabado. As intenções de Balilla são porém outras.

Quase dois anos depois, regressa aos relvados com a camisola do grande rival, o AC Milan. Segue-se a Juventus, a Atalanta, até que em 1946, com 36 anos, regressa ao seu Inter. Faz 17 jogos e marca 2 golos durante a época 46/47 e pendura as chuteiras. Seguindo os conselhos de Pozzo, jogou as suas ultimas como médio, uma espécie de avançado recuado, onde passeou a sua classe, embora sem as explosões de outrora.

A sua aura é de tal dimensão que o seu nome ainda hoje é talvez o único caso em que ao longo do tempo foi possível um consenso entre interistas e milanistas, ao ponto do Estádio São Siro, onde jogam as duas equipas de Milão, ostentar hoje o seu nome. É esta a real dimensão dos mitos. Em 1979, no dia em que completava 69 anos, acabaria por falecer, deixando para trás uma vida intensa, dedicada ao futebol que o tirara da miséria e fizera dele o sublime "Balilla de Itália".

CARREIRA:

Ambrosiana / Inter , 1927 a 1940.

Milan, 1940 a 1942.

Juventus, 1942/43.

Atalanta, 1945/46.

Varese, 1943 a 1945.

Inter, 1946/48

TITULOS:

Campeão do Mundo 1934 y 1938.

2 Scudettos com Ambrossiana Inter, 1929/30 e 1937/38.

1 Copa Italia, 1938/39.

Melhor marcador do Scudetto peloa Ambrosiana Inter, 1929/30 (31 golos), 1935/36 (25 golos) e 1937/38 (20 golos).