Os anos 70 ainda se espreguiçavam, quando numa madrugada de 71, Ron Ashman, manager do Scunthorpe, teve de se levantar cedo. Dias antes comprometera-se com Shankly em levar nessa manhã a Anfield Road um “little boy” de 20 anos que fazia o queria da bola e que, na brincadeira, descrevera como um terrível buldog em forma de jogador de futebol. O seu nome era Kevin Keegan. Os clubes tinham acordado uma transferência por 33.000 libras. Uma pequena fortuna para o modesto Scunthorpe.
No caminho, porém, o miúdo Keegan apenas lembrava as palavras do seu pai, um humilde mineiro, que antes de sair de casa lhe aconselhara sabiamente a nunca se vender barato. Quando chegou a Anfield, Keegan encontrou um ambiente confuso. Estava-se a cinco dias da final da Taça com o Arsenal. Durante meia hora esperou numa sala para ser recebido. Começava a ficar nervoso quando ouviu, com típico sotaque escocês, a inconfundível voz de Shankly. Levantou-se de imediato e, num instante Shankly entrou na sala e mal olhou para o seu 1,63m., ficou impressionado: “Hey, son, já alguma vez pensaste em ser boxer? Que físico, costumas fazer pesos?” Muitos não sabem, mas Shankly estava certo, antes de jogar futebol, Keegan fora boxer na sua adolescência em Doncaster.
A proposta de Shankly foi 45 libras por semana. Keegan ouviu, lembrou-se dos conselhos do pai, fingiu-se pouco impressionado e disse que “Não sei, no Scunthorpe ganho 35 mais 10 de bónus de vitória.” Ashman ia desmaiando vendo os seus 33.000 a voar. Shankly olhou-o e ripostou: “Ok, 50 por semana!”. Negócio fechado. Na viagem de regresso, Ashman, furioso, repreendeu Keegan, que, na verdade, apenas ganhava 30 libras. “Ok, mas pelo menos falei verdade no 10 de bónus”, disse o pequeno leão de Doncaster. respondeu Ashman, mas quando é que alguma vez ganhas-te um bónus em Scunthorpe?”.No final, felizes, ambos terminaram a rir-se e a brindar ao excelente negócio. Bons tempos.
Assim começava o fabuloso caminho de Keegan em Liverpool. Ainda hoje ele é a sua figura mais recordada. Era um jogador fantástico. Desenvolveu uma tal intimidade com a bola que muitos passaram a atribuir os seus lances de génio a pura sorte. Nesse contexto, Jack Charlton, ex-internacional e exímio pescador, disse uma vez que se Keegan tropeçasse e caísse no Rio Tyne levantarse-ia com um salmão na boca. Era uma personagem cativante. Em Southampton os jogadores costumavam dizer que quando Keegan se atrasava para o autocarro da equipa era porque estava a correr a cidade á procura de alguém que ainda não tivesse o seu autografo.
Delirios britânicos, claro está. Keegan era um talento nato. Veloz, mudando constantemente de posição, parecia voar baixinho. O chamado estilo “Mickey mouse” em 90 minutos de um só fôlego.
CARREIRA: jogos/golos
- 1970/'71 Scunthorpe United (Eng )
- 1971/'72 Liverpool (Eng1) 35 -9 1
- 972/'73 Liverpool (Eng1) 41 -13 1
- 973/'74 Liverpool (Eng1) 42 -12
- 1974/'75 Liverpool (Eng1) 33- 10
- 1975/'76 Liverpool (Eng1) 41 -12
- 1976/'77 Liverpool (Eng1) 38 -12
- 1977/'78 Hamburger SV (Dui1) 25- 6
- 1978/'79 Hamburger SV (Dui1) 34- 1
- 1979/'80 Hamburger SV (Dui1) 31 -9
- 1980/'81 Southampton (Eng1)
- 1981/'82 Southampton (Eng1)
- 1982/'83 Newcastle United (Eng2)
- 1983/'84 Newcastle United (Eng2)
TITULOS:
- 3 Premiere League com o Liverpool, 1975/76 - 1976/77 - 1978/79.
- 2 Taças UEFA com o Liverpool, 1972/73 e 1975/76.
- Campeón de la Cup FA con el Liverpool, 1973/74.
- 1 Taça dos Campeões com o Liverpool, 1976/77.
- 1 Bundesliga com o Hamburgo, 1978/79.
- 1 Taça da Alemanha, com o Hamburgo, 1978/79.
- 2 BOLAS DE OURO - Melhor jogador europeu do ano, 1978 y 1979.