LAUDRUP: Classe e Imaginação

30 de Setembro de 1998

Um jogador chega ao fim da sua viagem terrena pelos relvados sentindo-se diferente. Mais difícil que aceitar que chegou a hora de colocar fim na carreira, é escolher o momento certo para o fazer. Em geral, o treinador é o primeiro a descobrir que chegou a hora, e o jogador é o último a aceitar esse desígnio. Quando sucede o contrário, é o jogador que descobre com mestria o momento certo de abandonar, deixando ainda a sua estrela a brilhar bem alto no firmamento futebolístico. Não faltam exemplos de quem soube, ou não soube, melhor colocar a sua estrela na hora do abandono.

Em Março de 92, estava Laudrup em Praga com o Barcelona para um jogo da Taça dos Campeões, quando disse que queria parar de jogar aos 30 anos. «Quero viver outras coisas e não demasiado velho. Estou a ficar cansado. Todos os dias um avião, um hotel, o treinador, o jogo... Nunca farei como Morten Olsen, que só parou aos 39. Mas quero continuar a jogar por prazer, a baixo nível...». Passaram-se os anos. Depois de deslumbrar a Catalunha, ainda passeou classe duas épocas no Real Madrid de Valdano, para quem Laudrup «parece ter olhos em todo o corpo». Com quase 32 anos, deixou as tempestades do futebol espanhol e, cumprindo op lano revelado naquela conversa em Praga, foi jogar para o Japão. «Depois de 13 anos em Itália e em Espanha, buscava um pouco de tranquilidade. Encontreia, mas o nível do jogo não me entusiasmava. Senti que amo tanto o futebol que não podia passar os últimos dias assim, só à espera do fim. Faltava-me adrenalina. Comecei a pensar no Mundial e decidi acabar jogando ao mais alto nível.» Na mesma altura, Morten Olsen, o homem que jogou até ao último segundo das suas forças e foi o grande "capitão" da selecção dinamarquesa que em 84, com Elkajer, Lerby e, claro, Laudrup, assombrou a Europa, era eleito novo treinador do Ajax. Sorriu quando soube da decisão de Laudrup, e logo convidou o príncipe dinamarquês a viajar para a Holanda.

LAUDRUP Classe e ImaginaçãoDepois de Itália, onde conviveu, na Juventus, com Michel Platini, para quem Laudrup era «o melhor jogador do mundo... nos treinos», e de Espanha, decidiu, com a França-98 no horizonnte, escrever no Ajax as últimas páginas do seu livro futebolístico. Uma história ilustrada pela sua classe e elegância no trato da bola. Quis o destino, porém, que ficasse afastado da maior conquista do futebol dinamarquês, quando em 92, devido a um diferendo com o seleccionador RichardMoller Nielsen, recusou a selecção e não abraçou o título europeu conquistado na Suécia. Cruyff considera que os anos 90 são um trono sem rei, digno sucessor da monarquia de Di Stefano, Pelé e Maradona. Para o mago holandês, rei dos anos 70, Laudrup, que foi seu jogador no Barcelona durante quatro épocas, poderia ter sido, com sua incrível técnica e visão de jogo, o rei da última década do século. Faltou-lhe ter nascido na América do Sul, crescendo a jogar na rua ou num baldio, longe do conforto da vida na Europa, que condiciona o emergir do génio natural escondido dentro do verdadeiro jogador de elite. Laudrup nunca aplicou no seu jogo o instinto de sobrevivência que os meninos aprendem nas ruas do Brasil ou da Argentina. Essa classe de jogadores não se fabrica, nasce naturalmente. «Laudrup foi um grande jogador, quando podia ter sido o número 1», sentencia Cruyff. Laudrup soube sair de cena no momento certo, abandonando a sua estrela num local bem visível e brilhante na constelação dos grandes do futebol. A dinastia continua. Depois dele e do seu pai Finn Laudrup, antiga glória do Rapid Viena, a herança continua no talento do irmão Brian, 29 anos, mais velocidade, porém menos classe e imaginação.

CARREIRA

  • 1982 Brøndby (Den1) 24- 15
  • 1983 Brøndby (Den1) 14- 8
  • 1983/'84 Lazio (Ita1) 30 -8
  • 1984/'85 Lazio (Ita1) 30- 1
  • 1985/'86 Juventus (Ita1) 29- 7
  • 1986/'87 Juventus (Ita1) 20- 3
  • 1987/'88 Juventus (Ita1) 27- 0
  • 1988/'89 Juventus (Ita1) 26 - 6
  • 1989/'90 Barcelona (Spa1) 32 -3
  • 1990/'91 Barcelona (Spa1) 30- 9
  • 1991/'92 Barcelona (Spa1) 36 -13
  • 1992/'93 Barcelona (Spa1) 37- 10
  • 1993/'94 Barcelona (Spa1) 31- 5
  • 1994/'95 Real Madrid (Spa1) 33- 4
  • 1995/'96 Real Madrid (Spa1) 29 -8
  • 1996 Vissel Kobe (Jap2) 12- 5
  • 1997 Vissel Kobe (Jap2) 3- 1
  • 1997/'98 Ajax (Ned1) 21 - 11