MASOPUST

16 de Junho de 2005

Bela e virtuosa, a história do futebol checo nasceu e cresceu emoldurada em 700 anos de sublime arte europeia, expressa no legado arquitectónico e cultural que desenha a mágica Praga, povoada de Palácios e palecetes, grandiosas igrejas, estátuas e estatuetas, edifícios de encantar, onde coexistem fachadas góticas, com rococós renascentistas, enormes e praças e praçetas todas calçadas, por onde certamente caminhou Mozart e Kafka, tudo resultado dos diferentes povos, impérios e países que fizeram dela sua amante, nas margens do rio Vitava, romanticamente atravessado por doze pontes de uma beleza comovente.

Um homem dribla e o futebol avança. A grande explosão do futebol checo surgiria sob a batuta do maestro Jozef Masopust, Pépik para os amigos, o melhor jogador checo de todos os tempos que dominou todo o cenário do futebol danubiano desdes meados dos anos 50. Filho de uma modesta familía operária do coração da velha Boémia, em Strimice, cresceu vendo o pai trabalhar nas minas para sustentar uma casa onde as carências aumentavam. Procurando figir aos buacos da minas, o jovem Pepik começou a jogar futebol. A guerra e a ocupação nazi iriam, no entanto, travar os seus sonhos. Só em 1945, com xx anos, Masopust voltaria a calçar as chuteiras no modesto Sport Klub Most, de onde sairia em 1949, porque era obrigado a cumprir o serviço militar. Pasou então pelo ATK, Club Desportivo da Armada, o actual Dukla de Praga, em memória dos mártires tombados durante a batalha de Dukla em 1944. Aí, Masopust descobriu como treinador Koisky, antigo médio internacional, que lhe explicou os principios tácticos do jogo, ensinou-o a defender e a trabalhar também para o colectivo, onde estava já o solidário sistema de marcação á zona. O sistema de marcação individual só mais atrás, na defesa. N ataque, Masopust conheceria o velho Vejvoda.

Em 1954, estreava-se na selecção nacional checa, num jogo contra a forte Hungria, então com a sua equipa de ouro no auge. A missão de Masopust não ea simples: marcar Puskas! Atropelados pelo estilo magyar, a Checoslováquia seria goleada por 4-1. Depois desse jogo, Masopust já não tinha dúvidas: o futebol checo estava aprisionado por um sistema defensivo que impedia o surgir de grandes individualidades, preconizando antes uma equipa de onze soldados, quase todos iguais, pelo que o ataque, onde ele estava, vivia desamparado, sem nunguem de talento para o acompanhar. O jogo longo, de passe em profundidade, era, em suma, a negação do estilo checo. A renovação chegaria, no entanto, entre 1956 e 1958.

Na linha ofensiva, surgiam nomes como Pazdera, Moravcik, Farayz, Borovicka e Koraus. Sobre a defesa estavam Herti, Hledik, Novak, Pluskal e, clar, o homem que ligava os dois sectores, Masopust. Foi esta equipa que venceria o Brasil, em pleno Maracana, 1-0 golo de Moravcik, a Hungria com todas as suas vedetas por 4-2, em Budapeste, e a Suíça do ferrolho em Genebra, 6-1. Ao mesmo tempo, a vila onde Masopust nascera deixara de existir para se tornar num gigantesvca mina de arvão. Os seus habitantes ainda lutaram or manter as suas casas mas quando os buldozzers chegaram não havia nada a fazer. Masopust ainda pensou usar o seu prestigio para defender a terrinha onde nascera, mas naquele tempo não havia discussão possível com as autoridades comunistas. STrimice seria demolida em nome do colectivo para fazer progredir a industria socialista. A cidade passaria a chamar-se Most e se há algo que ainda hoje irrita Masopsut é que lhe digam que o nome da vila onde nasceu não era Strimce, mas sim em Most.

Do Mundial de 1962 ficaria a sensação, vendo jogar esta selecção checa, que, demasiado estendido no relvado, o 4-2-4 exigia, para ser eficaz, dois médios verdadeiramente fora-de-série para controlar a bola e o jogo a meio campo. Caso contrário o sistema ficava sem suporte e totalmente dependente da eficácia do sector defensivo e só com isso é impossível ganhar jogos. Virtuosa, sem ser fabulosa, aquela selecção checa carecia de jogadores polivalentes para dar homogeneidade ao sistema, pois o duo Bubernik e Masopust, claramente de vocação ofensiva, abria muitas vezes grandes clareiras a meio campo, aproveitadas pelos adversários. Atento, o seleccionador Vytlacil procurou resolver o problema, que já se sentira antes do Mundial, colocando Kvasniak no meio-campo, apesar de chegar ao Chile com uma lesão mal curada que o impedia de atingir o seu melhor nível, para assim concentrar a equipa durante largos períodos de jogo num mais coeso 4-3-3.

Dizia-se então que os checos praticavamo chamado futebol do gato e do rato, pois muitas vezes deixavam-se empurrar para o seu meio campo, para depois desencadear contra ataques fulminantes. Quando chegou a Santiago para disputar a final contra o Brasil, os jogadores checos estavam calmos e descontraídos. As suas faces sorridentes, os gestos cordiais e a forma de andar revelava que qualquer que fosse o resultado, aquela selecção já tinha cumprido a missão de resgatar o prestígio e o perfume do belo futebol checo. O inicio do jogo revelou duas equipas prudentes. Ambiciosa, a equipa checa foi a primeira a acelerar o ritmo e aos quinze minutos abriu o marcador com um admirável golo de mestre Masopust. A reacção brasileira seria, no entanto terrível mas tal como sucedera com a Itália em 1934, encontraria no guarda redes checo um aliado. Depois dos erros de Planika em 34 sucederam-se os de Schroiff, em 1962, que com dois erros permitiu que os brasileiros dessem a volta ao marcador.

Masopust emergiria no entanto como o grande jogador de leste que fizera tremer os brasileiros, ganhando a Bola de Ouro, que consagrava o melhor jogador europeu do ano de 1962. O seu futebol só ganhava brilho total, porém, numa equipa que tivesse um sistema de jogo que respeitasse as tendências ofensivas, onde Masopust, inserido o 4-2-4, era o médio que organizava, destribuia e concluia todo o jogo.

Com o pasar dos anos tornou-se um avançado centro ao estilo dos bons velhos tempos. Daqueles que vinha buscar a bola atrás e depois saia a conduzi-la, de cabeça erguida, com grande classe buscando o golo. Com o ala direito, mais recuado, Novak e o ala Puskal encontrou os dois companheiros de equipa ideias para explanar o seu maravilhoso futebol. Masopust acabaria a careira na Bélgica, no Molenbeek, epois de, aos 37 anos, o regime comunista, em reconhecimento pelos seus bons serviços prestados á pátria, ter permitido a sua aída do pais. Estávamos em Junho de 1968.

Dois anos depois, em 1970, perto de fazer 40 anos, colocava o fim na sua carreira. Tornou-se treinador, ainda foi campeão no banco do Zbrojovka de Brno, em 1978, mas nunca descobriria grande prazer no trabalho de técnico. Retiraria-se definitivamente do futebol em Maio de 1996, com 65 anos, após treinar a modesta equipa do Diecin.

CARREIRA

  • Teplice (Checoslovaquia). Dukla de Praga.

TITULOS

  • Vicecampeão do Mundo com Checoslovaquia, 1962.
  • 8 Liga checas com o Dukla de Praga.

BOLA DE OURO

  • Melhor jogador europeu do ano en 1962.