MATTHIAS SINDELER

16 de Junho de 2005

Lúcido e perspicaz, ele se aproxima Que sorte a memória nos oferece O golo que ainda hoje brilha na mente Já é remoto e completamente obscuro É de um menino de bairro Seu nome Matthias Sindeler. Friedrich Torberg, poeta de Viena, em Balada pela morte de um futebolista

Verão de 1938. Na voragem cega de dominar o mundo, as tropas nazis entram em Viena. Era o Anschluss, a anexação da Áustria ao Terceiro Reich, que com os seus tentáculos estende a ideologia ariana aos relvados de futebol e decide também anexar futebolisticamente a selecção austríaca. O Wunderteam fica impedido de participar no Mundial-38, em nome da selecção da Grande Alemanha, que surge em Paris integrando seis jogadores da antigo onze austríaco. Entre eles, já não estava, no entanto, o mais famoso e admirado futebolista austríaco de todos os tempos, encontrado morto poucos meses antes : Sindeler, estrela, lenda ou mito, que se recusara a jogar pela selecção da Grande Alemanha e, dias antes, marcara o último golo contra o nazismo. Tinha apenas 36 anos e a sua vida parece um parábola humana escrita por Kafka. Até hoje permanecem murmúrios de suspeissão sobre os verdadeiros motivos da sua morte. Ao longo dos anos, muitos investigadores, autores, poetas e simples estudiosos adiantaram teses sobre o seu desaparecimento. Acidente, suicídio, assassinato, morte natural...

MATTHIAS SINDELERNascido em no seio duma família humilde de Viena, o jovem louro Mathias, tinha 15 anos quando se tornou apanha bolas dos treinos do Herta, modesto clube vienense. Passava os dias a assistir aos jogos e treinos da equipa. Até que um dia, como faltava um jogador, é convidado a integrar o treino de conjunto para fazer número. Deslumbrado, começa a driblar e a tocar a bola com destreza. Todos ficam espantados. Era o nascer do maior futebolista austríaco de todos os tempos. Jogou toda a sua carreira no FK Austria, Ficou conhecido como o Mozar do Futebol, célebre pela sua técnica de cristal, que confundia o drible com a dança, autor de um futebol quase musical, que o levou a ser considerado, á época, como o melhor jogador do mundo, apelidado por muitos, pela leveza dos seus movimentos e aparente fragilidade física, como o homem de papel. Para se entender as raízes da sua lenda é necessário situarmo-nos na Vienna durante o tempo da guerra. Em plena era do Anschluss, as autoridades nazis organizam um jogo, no Prater, entre a Alemanha e uma selecção de jogadores austríacos, então habitantes da região de Ostmerk, o novo nome da velha Áustria. Pretende-se um jogo de propaganda, prova da superioridade ariana. Todos pressentem que está vedado aos austríacos qualquer veleidade. Sindeler, no seu estilo musical, dá um recital de futebol. Dribla, faz jogar e muitas vezes, quando perto de marcar, resolve tocar para trás. Todos percebem a sua malícia, até que, a magia do futebol fala mais alto e Sindeler faz um golo digno da Wunderteam. O jogo termina com a vitória austríaca por 2-0, no nariz dos capacetes nazis e das botas cardadas das SS. Ao passar diante da tribuna onde estão as autoridades germânicas, Sindeler e o seu amigo Sesta, recusam a saudação nazi e erguem, na sua direcção, o punho cerrado da vitória. Um enorme calafrio percorre todo o Estádio.

MATTHIAS SINDELER3Por essa altura já corriam rumores sobre as simpatias de Sindeler para com judeus, checos e sociais-democratas. Muitas vezes fora ouvido a criticar o Anschluss, no seu café, o pequeno cavalo branco, que comprara três anos antes a um emigrante judeu que vira os seus bens confiscados em nome da ideologia ariana. Findo o jogo, muitos jogadores reunem-se no seu local. Conta-se então que perto das 6 da manhã, quando fechava todas as portas, recebe a chamada de uma mulher, Camila Castagnola, sua companheira há poucos dias que, segundo narra Wolfgang Maderthaner no seu sublime livro O Futebol e as culturas populares na Viena moderna, era italiana, católica, prostituta e, pior, meia judia. Poucos minutos depois, ambos se encontram num pequeno apartamento, sito no futuramente célebre nº3 da Rua Anna, morada de Camila. Nesses tempo, Sindeler, com fama de mulherengo, ainda vivia, aos 36 anos, sozinho com a sua mãe. A noite esvai-se e o dia amanhece. É a manhã de 23 de Janeiro de 1939. Sindeler não aparece no seu café. É então que um seu amigo, Gustav Harmann, se recorda de o ter visto a sair em direcção á casa da, dizia-se, sua amante. Chegados á morada, forçam a entrada e descobrem Sindeler caído morto, ao lado de Camila, também perto da morte, repousando ao lado de ambos uma garrafa de conhaque e dois copos. A autópsia revela friamente: intoxicação por oxido de carbono. Os dias seguintes, porém, adensam a especulação. Fala-se em fugas de gás, chaminés danificadas e intoxicação de medicamentos. Começa a falar-se demais e a Gestapo nazi, pura e simplesmente, encerra a investigação. É então que, com o passar dos anos se entra no domínio da lenda.

MATTHIAS SINDELER5Para tentar entender o drama, muitos recordaram a personalidade conturbada de Sindeler. Quando em 1925, com apenas 22 anos, a sua carreira começara a despontar, sofreu uma grave lesão no joelho que quase o levou a ter de abandonar o futebol. Conta quem o conheceu por essa altura que ficara completamente transtornado, desesperado, pensando suicidar-se. Seria salvo pelas mãos milagrosas de um cirurgião e pode seguir a sua carreira, mas na memória ficara a sua reacção desesperada que, subitamente, voltava a ser recordada quase 15 anos depois. Para os orgulhosos resistentes austríacos, Sindeler permanece um símbolo mártir da invasão alemã, o homem que, após marcar o último golo contra o nazismo, preferiu a morte, tendo-se suicidado, a jogar pela selecção da Grande Alemanha. Para o homem que pensava com as pernas, como o definiu, um dia, o poeta vienense Friedrich Torberg,